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Termo
Museu da Imagem e do Som
Dados Históricos e Descrição

Segundo Cecília Costa, jornalista, pesquisadora e autora da biografia “Ricardo Cravo Albin: Uma vida em imagem e som”, trecho:

“O museu fora criado, em 1965, pelo governador Carlos Lacerda, dentro das comemorações do ‘IV Centenário’ da cidade. Já o homem que deu início à constituição do seu acervo, a pedido de Lacerda, se chamava Maurício Quadrio. Produtor radiofônico e musicólogo de origem ítalo-judaica. Quadrio era dono de um grande acervo de discos de música popular e também internacional. A inauguração oficial ocorreu em 3 de setembro de 1965. Um dia após, ou seja, em 4 de setembro, Lacerda se afastaria do cargo de governador, sonhando com uma candidatura para presidente que nunca viria a se concretizar, deixando em seu lugar vice, Raphael de Almeida Magalhães, que nomeou para a direção do MIS Ricardo Cravo Albin.” 

O MIS – Museu da Imagem e do Som – surgiu oficialmente em 3 de setembro de 1965, e inaugurado dois dias depois, na Praça XV de Novembro, no Centro do Rio de Janeiro, no prédio que fora construído para as comemorações do Centenário da Independência do Brasil, em 1922, sendo o imóvel um dos pavilhões da comemoração, com projeto do arquiteto Sílvio Rebecchi o prédio foi o Pavilhão do Distrito Federal na Exposição do Centenário.

O museu criado, pelo governador Carlos Lacerda, para as comemorações do “IV Centenário da Cidade do Rio de Janeiro”, foi instalado no prédio em estilo Luís XVI, cuja reforma era supervisionada por Maurício Quadrio, designado, à época, como o seu primeiro diretor e conservador provisório. Contudo o museu era administrado pela Fundação Vieira Fazenda, e já contava com o acervo de Maurício Quadrio (coleção de discos e fitas com vozes de Rui Barbosa e do Barão do Rio Branco, entre outras personalidades históricas) e do acervo do pesquisador Henrique Foreis Domingues (Almirante), comprado por Carlos Lacerda, que também adquiriu o acervo do jornalista e musicólogo Lúcio Rangel.

O museu, no ano de sua fundação, já contava com parte da iconografia do Arquivo Público do Rio de Janeiro, como parte do arquivo (2/3) do fotógrafo Augusto César Malta (1864-1957) com 80 mil fotos.

Outros arquivos já estavam nas dependência do MIS, tais como as fotografias de Guilherme Antonio dos Santos (1871-1966), oito telas que haviam pertencido à família imperial, além do primeiro e segundo volumes – originais – de “Voyage Pittoresque dans le Brésil”, publicado em Paris em 1835, de Johan Moritz Rugendas (1802-1858).

Ricardo Cravo Albin foi convidado pelo então governador em exercício Raphael de Almeida Magalhães para o cargo de diretor-executivo, mais precisamente, diretor da Fundação Vieira Fazenda, segundo comenta em seu livro “Museu da Imagem e do Som – Rastros de Memória”.

Em seus primeiros anos de gestão, ainda na década de 1960, criou diversos projetos que ajudaram a dar visibilidade ao MIS, como a matéria de 25 de agosto de 1966, no Jornal do Brasil, que estampava uma foto de João da Baiana no ato do depoimento um dia antes.

No ano de 1966 Ricardo Cravo Albin, no formato de registro sonoro, deu início aos “Depoimentos para a Posteridade”, no MIS, com relatos dos próprios compositores: João da Baiana, em 24/8; Heitor dos Prazeres, em 1/9; Pixinguinha, em 6/10; Capiba, em 27/10/ e Bororó, em 3/11, seguindo pelo jovem Chico Buarque, de 22 anos, em 11 de novembro de 1966.

Tais depoimentos, em 1ª pessoa, realçavam o aspecto da tradição oral de repasse do conhecimento. De acordo com o escritor em seu livro “Museu da Imagem e do Som – Rastros de Memória”, trecho:

“… um depoimento mais sociológico, com os entrevistados exprimindo a sua verdade íntima.” 

Ainda de acordo com a jornalista Cecília Costa, na biografia “Ricardo Cravo Albin: Uma vida em imagem e som”, trecho:

“Inesperadamente, com o depoimento do filho da Tia Perciliana, o MIS começou a ganhar repercussão na imprensa. Tendo sido convidada para ouvir o testemunho de João da Baiana, a mídia impressa destacou o relato. A matéria sairia nas primeiras páginas de O Globo, Jornal do Brasil, Correio da Manhã, Diário de Notícias, Folha de São Paulo e Estadão, entre outros órgãos da grande imprensa brasileira. Várias revistas também registraram a entrevista concedida pelo grande sambista.” 

Outro projeto importante foi a criação do “Conselho Superior de Música Popular Brasileira”, sugerido por Ary Vasconcelos ao diretor-executivo. Seria composto por com 40 pessoas e 40 cadeiras com os seguintes ocupantes: Ary Vasconcelos (Cadeira 01), Ricardo Cravo Albin (Cadeira 02), Maestro Cézar Guerra-Peixe, Eneida de Morais, Sérgio Cabral, Mauro Ivan, Juvenal Portella, Vinícius de Moraes, Sérgio Porto, Lúcio Rangel, Mário Cabral, Dulce Lamas, Mercedes Dias Pequeno, Edison Carneiro, Marques Rabello, José Ramos Tinhorão, Jacob do Bandolim, entre outros.

Mais sete Conselhos foram criados nesta época: Esportes, Cinema, Música Erudita, Comunicação, Artes Plásticas, Teatro e Literatura, envolvendo mais de 200 críticos.

Nesta época, década de 1960, com aval do então governador do Estado do Rio de Janeiro, Francisco Negrão de Lima, destacaram-se também a criação dos prêmios “Golfinho de Ouro” e “Estácio de Sá”, além de produção de discos, começando em 1968 pelo LP “Maria Lúcia Godoy Canta Poemas de Manuel Bandeira” e “O Canto da Amazônia”, da mesma cantora, com arranjos de Guerra-Peixe, lançados pelo Selo Museu da Imagem e do Som.

Os vinis foram gravados no pequeno estúdio do Museu, nomeado “Estúdio Elizeth Cardoso”, seguidos de outros como o elepê do bandolinista Luperce Miranda, e os volumes 1 e 2 do LPs extraídos do show “Carnavália – Eneida Conta a História do Carnaval – Marlene, Blecaute e Nuno Roland”; ou ainda, o álbum duplo “Elizeth Cardoso, Zimbo Trio e Jacob do Bandolim Ao Vivo no Teatro João Caetano”, gravado entre março e maio e de 1968, espetáculos e discos feitos para arrecadar fundos para o museu. Todos os cinco trabalhos produzidos por Ricardo Cravo Albin, além do disco “Clementina, cadê você”, de Clementina de Jesus, este, produzido por Hermínio Belo de Carvalho.

Como diretor-executivo do Museu da Imagem e do Som, leia-se, Fundação Vieira Fazenda, Ricardo Cravo Albin permaneceu no cargo de 1965 a 1971. Neste período foram inaugurados museus da imagens e do som em vários estados do país.

O cargo viria a ser ocupado, nas décadas seguintes, pelo pianista e escritor Jorge Roberto Martins, pela produtora de cinema Maria Eugênia Stein e pela escritora Marília Trindade Barboza da Silva, entre outros.

No ano de 1975, o Museu da Imagem e do Som foi incorporado à Fundação Estadual de Museus do Estado do Rio de Janeiro (FEMURJ), e, quatro anos depois, em 1979, a administração seria transferida à Fundação de Artes do Rio de Janeiro (FUNARJ).

No final da década de 1980 foi criado um anexo na Rua Visconde de Maranguape, 15, no Largo da Lapa, no centro do Rio de Janeiro. No local passou a funcionar, entre outros departamentos, o gabinete da presidência, o Setor Acadêmico e o Setor de Depoimentos, e ainda, o “Centro de Pesquisa, Memória e Documentação Ricardo Cravo Albin”, nome dado pelo presidente da instituição Cesar Miranda Ribeiro em 2021, na qual o público passou a ser atendido em suas diferentes demandas de pesquisas, além de um mezanino com exposições alternadas sobre ícones da MPB. O local passou a abrigar uma parte do acervo de móveis antigos de aparelhos de som de várias épocas, a partir do final do século XIX (rádios, radiolas, gramofones, vitrolas etc), como também instrumentos musicais de diversos personagens da música brasileira.

Em 12 de outubro de 1990, criou-se a Fundação Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro pela Lei 1.714, segundo informação do site da instituição.

No ano de 2010 foi iniciada a obra de construção da nova sede do MIS em Copacabana, na Avenida Atlântica.

No ano de 2025 a instituição comemorou os 60 anos da Fundação do Museu da Imagem e do Som. Na ocasião, no Salão Assyrius do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, foram entregues pelo presidente em exercício, César Miranda Ribeiro, o “Troféu Golfinho 60 Anos – Edição Comemorativa – Fundação Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro” a 60 personalidades políticas e artistas de diversas áreas da cultura, dentre eles Joel Nascimento, Hugo Sukman, Fernanda Abreu, Beth Goulart, Abel Silva e Ricardo Cravo Albin, seu primeiro diretor e o homenageado de honra do evento.

Sobre tal acontecimento escreveu Ricardo Cravo Albin em sua coluna semanal:

“O Museu da Imagem e do Som, celebrado pela sigla MIS desde sua fundação em 1965, reuniu, em comemoração ocorrida em 3 de setembro deste ano, no Salão Assyrius, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, muitos dos diretores que por lá passaram por conta dos 60 anos de sua inauguração.

Tive a honra de ser homenageado, durante o evento, com o Troféu Golfinho 60 anos, entregue por César Miranda Ribeiro, atual presidente da entidade que vem cumprindo uma administração ágil para preservar o bom nome da Instituição.

Fiquei emocionado, com justa razão, ao ver boa parte dos diretores que me sucederam desde 1971, quando dei por consolidada a luta ferrenha de sua implantação, que começou nos dois últimos meses de 1965, ainda no verdor dos meus 25 anos, como Maria Eugênia Stein, que revitalizou a Associação de Amigos do Museu da Imagem e do Som (AMIS).

Recuperar a memória da cidade foi o desafio de sempre do MIS e de seus diretores, todos eles desabridos guardiões da porta que abre os tesouros tanto dos sortilégios do passado quanto da captação do presente.

O ontem preservado e o hoje apreendido certamente que determinarão um futuro definido e justo. Justo sim, porque este país é perdulário em arrastar para debaixo do tapete as melhores realizações de seu povo. Mas não devo aqui ficar apenas a lastimar a continuidade do descuido e do desdém neste país.

Meu objetivo é louvar agora o mais original dos museus da cidade desde 1965. Original? Por certo, até porque o MIS inventou a novidade absoluta do depoimento para a posteridade, captando para o seu acervo as impressões das vidas e dos feitos dos cidadãos que valem à pena. E isso sem preconceito de qualquer espécie.

Paralelamente aos testemunhos acolhidos em nossa atualidade, o Museu criou os conselhos de críticos, não só para definir os nomes que gravariam para a posteridade, senão também para votar os prêmios Golfinho de Ouro e Estácio de Sá proclamando os melhores trabalhos do ano. Tudo isso, e ainda a edição de muitos elepês, ajudou o Museu a ser instituição de prestígio nacional.

O MIS, o museu preservado por todos nós ao longo de seis décadas, foi e ainda é o ocupante – por meio século – do castelinho encantador da Praça XV, um dos dois remanescentes da Exposição de 1922. Como que para celebrar o passado cheio de glórias e inovações, constrói-se agora um novo MIS na Avenida Atlântica que lhe permitirá ir ao encontro de outras realidades.

Assim espero ardentemente.

Ricardo Cravo Albin.” 

Em decorrência das comemorações dos 60 anos de museu, o então presidente da FMIS-RJ, Cesar Miranda Ribeiro, jornalista e radialista, empossado no ano de 2021, escreveu para o jornal Correio da Manhã, trecho:

“Esse acervo está organizado em 45 coleções documentais, que abrangem temáticas e suportes diversos, e guardam preciosidades da história da música, do rádio, da televisão, do cinema, do jornalismo, da fotografia e da vida social e política do Brasil. Entre as coleções de destaque estão o acervo Almirante, com registros únicos da era de ouro do rádio; a coleção Rádio Nacional, com milhares de itens sobre a mais importante rádio do país das décadas de 40 e 50; a coleção de Depoimentos para a Posteridade, composta por mais de mil entrevistas com personalidades fundamentais da cultura brasileira; além de coleções dedicadas a grandes nomes como Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim, Marlene, Dorival Caymmi, Nara Leão, José Wilker e tantos outros, reunindo documentos sonoros, visuais e textuais de inestimável valor histórico e artístico.” 

No ano de 2026 a obra da nova sede do MIS em Copacabana, na Avenida Atlântica, entre a Rua Miguel Lemos e a Rua Djalma Ulrich estava em plena atividade e a nova sede quase pronta para a inauguração em abril deste mesmo ano, segundo o cronograma do governo do Estado.

 

BIBLIOGRAFIA CRÍTICA: 

ALBIN, Ricardo Cravo. Museu da Imagem e do Som – Rastros de Memória. Rio de Janeiro: GMT Editores/Editora Sextante Artes, 2000.

AMARAL, Euclides. Diário de Bordo: Artigos, Ensaios, Letras, Matérias, Poemas & Resenhas. Rio de Janeiro: EAS Editora, 2026.

COSTA, Cecília. Ricardo Cravo Albin: Uma vida em imagem e som. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2018.