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Nome Artístico
Joraci Camargo
Nome verdadeiro
Joraci Schafflor Camargo
Data de nascimento
18/10/1898
Local de nascimento
Rio de Janeiro, RJ
Data de morte
11/3/1973
Local de morte
Rio de Janeiro, RJ
Dados biográficos

Letrista. Teatrólogo.

Filho de João Drumond Camargo, e de Julieta Schafflor Camargo, nasceu no antigo bairro denominado Fábrica das Chitas, hoje Praça Saens Peña, no Rio de Janeiro. Fez o curso Primário na Escola Ramiz Galvão, da Municipalidade do Rio de Janeiro, e o ginasial no Colégio Batista Americano Brasileiro e no Ginásio Federal. Matriculou-se na Faculdade Livre de Direito, cujo curso não terminou, diplomando-se mais tarde em Ciências Jurídicas e Comerciais. Iniciou sua vida pública em 1916, como funcionário de Obras Novas contra as Secas, com exercício no interior de Pernambuco. Ao regressar ao Rio em 1917, casou-se com Nair Apparecida Junqueira, passando nesse mesmo ano a exercer as funções de professor primário no Patronato Agrícola de Santa Mônica do Ministério da Agricultura, sendo nomeado, por concurso, em 1919 para o cargo de oficial aduaneiro da Alfândega do Rio de Janeiro, e em 1920, transferido como 4º escriturário, para o Tesouro Nacional, cargo que exerceu até 1930, quando passou a dedicar-se exclusivamente ao Jornalismo.

Em 1919, ingressou na redação do “O Imparcial”, do qual se afastou em 1920, para colaborar com João do Rio na fundação de ” A Pátria”. Como redator desse jornal, passou a interessar-se pelas letras teatrais, escrevendo, especialmente para o Teatro Trianon, a Comédia “Fruta do Mato”, que não foi representada e cujos os originais desapareceram dos arquivos daquela empresa. Foi professor de Técnica Teatral do Curso de Especialização Teatral para professores, do Ministério da Educação, de História do Teatro, da Academia de Teatro da Fundação Brasileira de Teatro, do Conservatório Nacional de Teatro, do Serviço Nacional de Teatro do Ministério da Educação e Cultura e do Curso Intensivo de Teatro da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Ingressou na Associação Brasileira de Imprensa e na Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, conquistando nesta última a posição de Conselheiro Perpétuo e Benemérito.

Em janeiro de 1958, doou o primeiro piano à cidade de Brasília, ainda em construção. A solenidade se deu na festa da cumeeira do Palácio da Alvorada, com a presença de intelectuais e artistas, oportunidade em que o pianista Alcyr Pires Vermelho executou o Hino Nacional Brasileiro e o ” Peixe Vivo”, em homenagem ao Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Em 1962, foi eleito Presidente da Sbat (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais) , coroamento de uma vida devotada à implantação e consolidação dos direitos intelectuais em nosso país. Em 1967, ingressou na Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 32, que pertencera ao escritor e teatrólogo Viriato Correia.

No ano de 1970, na Espanha, foi eleito Presidente de Honra da Cisac (Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores). No ano seguinte, tomou posse em Santiago do Chile, como Presidente de Honra do Conselho Panamericano da Cisac. Em 1972, teve participação ativa, como Membro da Academia Brasileira de Letras, na reforma ortográfica da Língua Portuguesa. Ainda em 1972, foi eleito Presidente de Honra da Sbat.

Recebeu diversas homenagens “post mortem”. É nome de Escola Pública no bairrro de Cordovil, no Rio de Janeiro, de ruas na Ilha do Governador, Rio de Janeiro, e no município de Santa Maria (RS), e de avenida na cidade de Porto Alegre (RS). Em 1976, “Deus lhe pague” foi a primeira grande peça brasileira adaptada, por Millor Fernandes, Vinicius de Moraes e Edu Lobo, para o gênero comédia musical que, sob o mesmo título, foi apresentada com grande sucesso no Canecão, no Rio de Janeiro, sob a direção de Bibi Ferreira. Em 1981, “Deus lhe pague” foi adaptada para novela de televisão e exibida com enorme êxito em Buenos Aires, Argentina.

Inaugurou o teatro social e político em nosso país, rompendo com as peças “O Bobo do Rei” e “Deus lhe Pague” a barreira do “teatro de costumes”, que dominou os nossos palcos até o final da década de 1920. Em sua rica e variada temática, abordou, com talento e pioneirismo, diversos assuntos, os mais polêmicos, como por exemplo, o conflito psicológico e o drama psicopatológico em “Maria Cachucha”; o conflito religioso, em Santa Madre; o racísmo, em “O Burro”; a luta de classes em sua expressão mais aguda, em “Marabá”; a falibilidade da Justiça, em “O Juízo Final”; a inseminação artificial, em “A Figueira do Inferno”; sem contar o extraordinário conteúdo ideológico de “Deus lhe Pague”, símbolo de teatro de idéias no Brasil.

Dados artísticos

Aos 14 anos, iniciou-se no teatro como ator, atuando no palco do “Clube 24 de Maio”, sob a direção de Oscar Mota. Em 1925, atendendo a anúncio da empresa Pinto & Neves, do Teatro Recreio Dramático, escreveu com Pacheco Filho, uma revista intitulada “Vitória-Régia”, representada naquele teatro, pela  Companhia Margarida Max, com  o título de “Me leva, meu bem”. No ano seguinte,  a pedido do empresário Domingos Sagrato, devido ao extraordinário êxito da primeira, escreveu a segunda revista para o Teatro São José, intitulada “Calma no Brasil”. Esse segundo sucesso deu-lhe no meio teatral, o prestígio necessário a uma nova tentativa no campo do teatro declamado. Por meio de um engenhoso truque, que consistiu em oferecer como tradução de uma peça francesa um original escrito em colaboração com Antoine Casal, teve  a sua primeira comédia  “De quem é a vez ?”  representada no Teatro Trianon no dia 14 de julho de 1927, pela Companhia Jayme Costa e Belmira de Almeida. Dias antes da estréia dessa comédia, chegara ao Rio, vindo de Portugal com sua Companhia, o ator Leopoldo Fróes, para inaugurar uma temporada no Teatro Lírico, precisamente com a peça francesa que servira àquele truque. Ameaçado de processo judicial por Leopoldo Fróes, foi forçado a revelar o seu segredo, fato que na época causou sensação nos meios teatrais e jornalísticos, e do qual resultou a aproximação do jovem autor com o maior ator do país, que lhe encomendou a segunda comédia imediatamente estreada naquele mesmo ano e no mesmo Teatro Lírico, com o título “A  menina dos olhos”, com interpretação de Leopoldo Froes, Brunilde Júdice, Dulcina de Morais, Plácido Ferreira, Átila Morais, Cordélia Ferreira e outros. Estava assim firmada, definitivamente, sua reputação como autor teatral e como jornalista, passando a escrever continuadamente para todos os nossos teatros e sendo convidado por Mário Rodrigues para participação da fundação do jornal “A Manhã”. Em 1926, escreveu em colaboração com José do Patrocínio Filho, a revista “Dondoca”, apresentada no Teatro Fênix.  Ainda em 1927, foram encenadas suas comédias “De quem é a vez?”, no Teatro Trianon, “A menina dos olhos”, no Teatro Lírico, “O macaco azul”, no Teatro São José, “Tenho uma raiva de você”, no Teatro Cassino Beira-Mar, “Santinha do pau oco”, no Teatro Trianon e “O irresistível Robero”, no Teatro Cassino, em São Paulo.
Em 1928, teve sua primeira composição gravada, a canção “Lua cheia”, com música de Hekel Tavares, lançada por Stefana de Macedo na Odeon. Em 1929, fez a letra para o acalanto “Sapo cururu”, com música de Hekel Tavares, gravado por Francisco Alves, que gravou também o samba “Morena advinha que eu gosto de ti”, parceria com Henrique Vogeler. Nesse mesmo ano, Gastão Formenti gravou a canção “Tu não gosta de ninguém”, parceria com G. Lucena, Ruth C. de Moura a canção “Sabiá”, parceria com Hekel Tavares e Elpídio Dias o samba “Sinhô do Bonfim”. Ainda em 1929, foi encenada sua revista “Aleluia”, no Teatro Recreio e a comédia “Bazar de brinquedo”, no Teatro Trianon. Em 1930, foi encenada a opereta “Ciranda, cirandinha”, no Teatro João Caetano. No mesmo ano, Januário de Oliveira gravou a embolada “Olha o pingo”, com Hekel Tavares. Em 1931, escreveu a primeira comédia para o ator Procópio Ferreira, com o título de “O Bobo do Rei”, representada nesse mesmo ano no Teatro Trianon e premiada, em 1932, pela Academia Brasileira de Letras. “O Bobo do Rei” foi considerada pela crítica como o início do teatro social no Brasil e exerceu influência sobre todos os autores da época. Ainda em 1931, foram encenadas suas comédias “O sol e a lua”, “O amigo da família” e “Mania de grandeza”, todas no Teatro Trianon. Nesse mesmo ano, sua canção “O pequeno vendedor de amendoim”, parceria com Hekel Tavares foi gravada na Victor por Silvinha Melo.
No ano seguinte, escreveu a peça “Deus lhe pague”, representada pela primeira vez no Teatro Boa Vista, em São Paulo, no dia 10 de dezembro daquele ano, pela Companhia Procópio Ferreira. “Deus lhe pague”, representada no dia 15 de junho de 1933, no Teatro Cassino Beira-Mar, no Rio de Janeiro, confirmou o grande êxito alcançado em São Paulo, e passou, daí por diante, a ser representada por todas as companhias teatrais brasileiras. Vertida para o idioma castelhano por José Siciliano e Roberto Tálica, foi representada em quatro teatros, ao mesmo tempo, na cidade de Buenos Aires, com tal repercussão continental que, no ano seguinte, e, em 1936, foi incluída no repertório das companhias de todos os países latino-americanos  e apresentada nos Estados Unidos pelos alunos da língua portuguesa da Universidade de Baltimore, uma vez que fora adotada como livro auxiliar de ensino do nosso idioma, não somente naquela instituição como na Academia Militar de West-Point. Também em 1932, foram encenadas no Teatro Alhambra suas comédias “Uma semana de prazer” e “Meu soldadinho”. Em 1933, fez com Hekel Tavares as cenas coloniais “Leilão”, gravada por Jorge Fernandes na Odeon e as canções “Favela” e “Guacira”, duas das mais clássicas da música popular brasileira gravadas por Raul Roulien na Victor. Em 1934, as comédias “O neto de Desu” e “Marabá”, foram encenadas no Teatro Cassino Beira-Mar. Em 1935, Procópio Ferreira alcançou grande sucesso com as representações de “Deus lhe pague” em Lisboa, ao lado de Ester Leão, Maria Sampaio, Alexandre Azevedo e outros artistas portugueses. Em 1936, foram encenadas suas peças “Anastácio”, no Teatro Boa Vista, em São Paulo e “Maria Cachucha”, no Teatro Imperial, em Porto Alegre,  depois encenada para a inauguração (em 1/3/1936) do Teatro Serrador, no Rio de Janeiro. Em 1937, escreveu o ensaio “O teatro soviético”, lançado pela Editora Leitura. No mesmo ano, Carmen Miranda gravou em dueto com Barbosa Jr. seu choro “Quem é?”, parceria com Custódio Mesquita. Em 1938, a comédia “Fora da vida”, foi levada ao palco do Teatro Glória.
Em 1940, foram encenadas suas comédias “O sábio” e “O burro”, no Teatro Carlos Gomes, em Porto Alegre. No mesmo ano, sua canção “Mamãe baiana”, parceria com o cantor e compositor Xerém foi gravada na Victor por Aracy de Almeida. No ano seguinte, foram encenadas em São Paulo, no Teatro Boa Vista as peças “Maktub” e “O homem que voltou da posteridade”. Em 1942, foi encenada “Sindicato dos mendigos”, no Teatro Santana, em São Paulo. Nesse ano, escreveu o roteiro cinem,atográfico “Vinte e quatro horas de sonho”, filmado por Dulcina e Odilon nos estúdios da Cinédia. Escreveu também literatura infantil, como “Teatro da Criança”, em colaboração com Henrique Pongetti, em edição da Livraria José Olympio, traduzida e editada em espanhol na Argentina e “Aconteceu no Natal”, álbum infantil, em colaboração com o maestro Hekel Tavares e com o artista plástico Monteiro Filho. Em 1943, foi montada no Teatro Serrador a comédia “Grande mulher”. Nesse mesmo ano, escreveu as novelas radiofônicas “Ódio”, irradiada pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro e “Angústia”, irradiada pela Rádio Mayrink Veiga. Em 1945, “A pupila dos meus olhos” e “Bonita demais”, foram apresentadas no Teatro Serrador. No ano seguinte, “Nós, as mulheres”, foi levada à cena no mesmo teatro. Escreveu para o Rádio as peças históricas: “A Lei Áurea”, “A Proclamação da República”, “A Retirada da Laguna”, “O fim do Segundo Reinado”, “A festa das personagens de Machado de Assis”, “O Grito do Ipiranga”, “O Duque de Caxias”, “Tamandaré” e “O Sorteio Militar”. 
Em 1947,  foi representada em Madri e em todo o interior da Espanha, em tradução do Marquês Juan Inácio Luca de Tena, a peça “Deus lhe pague”. Essa peça que já foi vertida para quase todos os idiomas, inclusive o polonês, hebraico, idish e o japonês, constituiu ainda o maior sucesso de livraria da literatura teatral, alcançando no Brasil 22 edições, cinco em Portugal, três na Argentina, duas no Chile e nos Estados Unidos e uma em diversos outros países, constando na estatística oficial da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais que já foi representada mais de 15 mil vezes. Em 1948, escreveu o roteiro para “Dios se lo pague”, filmado pela Argentina Sonofilmes. No ano seguinte, seu roteiro “Não me diga adeus ou Bajo el cielo del Brasil”, foi filmado nos estúdios San Miguel, em português e espanhol, com dois “casts”, um brasileiro e outro argentino. Em 1950, escreveu o argumento cinematográfico “Vendaval maravilhoso”, sobre a vida de Castro Alves, filmado em Lisboa e no Rio de Janeiro, por Leitão de Barros. No ano seguinte, a comédia “Bagaço”, foi encenada no Teatro Serrador. Em 1953, “A Santa Madre”, foi encenada no Teatro Glória e em 1954, “Figueira do inferno”, no Teatro Dulcina.
Como delegado do Brasil, participou dos seguintes Congressos Internacionais de Autores: Sevilha, em 1935, Buenos Aires, em 1948,  Madri, em 1950,  Amsterdam, em 1952, Bergen (Noruega), em 1954, Hamburgo, em 1956, Estocolmo, em 1962, Londres, em 1964, Praga, em 1966, e Roma em 1968.  Em 1955, foi encenada a revista “Isto é carnaval”, feita em colaboração com Álvaro Moreyra e Geysa Boscoli, no Teatrinho Jardel. Em 1956, sua canção “Leilão”, parceria com o maestro Hekel Tavares, foi gravada pelo cantor Nelson Ferraz no LP “Lamento negro” quetev acompanhamento da orquestra de Radamés Gnattali.
Em 1960, dirigiu a Caravana da Música Brasileira que viajou a Londres com o patrocínio do Escritório Comercial do Brasil dando início às apresentações pela Universidade de Oxford. Dessa caravana fizeram parte o Sexteto de Radmés Gnattali, Edu da Gaita e Luis Bandeira.
Em 1987, a canção “Guacira”, com Heckel Tavares, foi regravada pela dupla Jane e Herondy.
Dentre os seus títulos figuram os seguintes: Vice-Presidente da Primeira Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores, com sede em Paris; Secretário Geral do Conselho Panamericano dessa entidade; Membro do Primeiro Comitê  Executivo do Instituto Internacional de Teatro, da Unesco; Membro do Instituto Brasileiro de Teatro; Presidente do Conselho Curador da Fundação Brasileira de Teatro, entre outros. Em 2009, o CD “Alma cabocla” lançado pela cantora Ana Salvagni em homenagem aos 40 anos de morte do maestro Hekel Tavares incluiu quatro parcerias dos dois: “Leilão”, “Guacyra”, “Acalanto” e “Favela”.

Obras
Favela (c/ Raul Roulien)
Guacira (c/ Hekel Tavares)
Leilão (c/ Hekel Tavares)
Lua cheia (c/ Hekel Tavares)
Mamãe bahiana (c/ Xerém)
Morena advinha que eu gosto de ti (c/ Henrique Vogeler)
O pequeno vendedor de amendoim (c/ Hekel Tavares)
Olha o pingo (c/ Hekel Tavares)
Quem é (c/ Custódio Mesquita)
Sabiá (c/ Hekel Tavares)
Sapo cururu (c/ Hekel Tavares)
Sinhô do Bonfim
Tu não gosta de ninguém (c/ G. Lucena)
Bibliografia Crítica

AMARAL, Euclides. A Letra & a Poesia na MPB: Semelhanças & Diferenças. Rio de Janeiro: EAS Editora, 2019.

AZEVEDO, M. A . de (NIREZ) et al. Discografia brasileira em 78 rpm. Rio de Janeiro: Funarte, 1982.

CARDOSO, Sylvio Tullio. Dicionário Biográfico da música Popular. Rio de Janeiro: Edição do autor, 1965.

MARCONDES, Marcos Antônio. (ED). Enciclopédia da Música popular brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed. São Paulo: Art Editora/Publifolha, 1999.

SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo. Volume1. São Paulo: Editora: 34, 1999.

VASCONCELLO, Ary. Panorama da Música Popular Brasileira – volume 2. Rio de Janeiro: Martins, 1965.