
Compositor. Maestro.
Filho de Manuel José Gomes, pianista, organista e violinista, que além de ensinar música era também professor de canto, sendo conhecido pelo apelido de Maneco Músico, na Vila de São Carlos, atual Campinas. Cedo herdou a vocação para a música e em 1846 já integrava a Banda Marcial, apresentando-se para Pedro II, durante uma visita do imperador à Vila de São Carlos. Na ocasião, a banda foi regida por seu pai e Carlos Gomes tocou triângulo, enquanto o irmão, José Pedro de Santana Gomes, tocava clarineta. Esta seria logo depois o instrumento do compositor, pouco antes de experimentar o violino, ainda na infância, no qual iria aprimorar os estudos musicais na capital paulista com Paul Julien, violinista premiado pelo Conservatório de Paris.
O piano entraria na sua vida por volta dos 11 anos de idade, quando começou a compor as primeiras músicas, influenciado por compositores eruditos italianos. A partir de 1848, passou a intensificar seu interesse pelas modinhas, compondo muitas peças do gênero e apresentando-se em pequenos concertos pelo interior de São Paulo, acompanhado pelo irmão, violonista. Compunha, então, além de modinhas, valsas e mazurcas. Abriu um curso de piano, canto e música, junto com Ernest Maneille e pouco depois foi morar em São Paulo com o irmão, hospedando-se numa república de estudantes. Nessa época, compôs a modinha “Quem sabe”, com letra de Bittencourt Sampaio, uma de suas mais famosas composições até hoje, gravada com sucesso por Francisco Petrônio e Dilermando Reis, tendo sido incluída na trilha sonora da telenovela “Senhora”, produzida pela TV Globo em 1975 e inspirada no romance homônimo de José de Alencar. A mesma modinha foi interpretada por Ney Matogrosso no show “Pescador de Pérolas”, na década de 1980, ao lado de Arthur Moreira Lima, Paulo Moura e Rafael Rabelo.
Em 1859, matriculou-se no Conservatório de Música, como aluno de contraponto de Gioacchino Giannini. O diretor do Conservatório era o autor do Hino Nacional, Francisco Manuel da Silva, que se mostrou impressionado com o talento do jovem compositor e a ele encomendou uma cantata para ser executada na presença do imperador. Apesar de ter contraído febre amarela, o que o levou a uma internação hospitalar, regeu sua cantata para o imperador Pedro II, no dia 15 de março de 1860,na Academia Nacional de Belas Artes. Na ocasião, foi condecorado com uma medalha de ouro. Ainda sentindo os efeitos da doença, retornou à sua cidade natal. Pouco depois, já curado, retornou ao Rio de Janeiro, onde regeu sua segunda cantata, no mesmo ano, na Igreja da Cruz dos Militares.
Foi nomeado, em 1861, ensaiador e regente de orquestra da Imperial Academia de Música e Ópera Nacional. Sua primeira ópera, “Noite no Castelo”, estreou em setembro de 1861, sob a regência de Francisco Manuel da Silva, no Teatro Lírico Nacional.
Dois anos depois, viajou para Milão, na Itália, onde tornou-se aluno de Lauro Rossi (1810-1885), diretor do conservatório local. Lá, obteve em 1866 o diploma de maestro-compositor. Em 1868, residindo na Itália, finalizou sua ópera mais famosa “Il Guarany”, composta durante três anos e baseada no romance “O Guarani”, de José de Alencar, e cuja protofonia tornou-se popular a ponto de servir como prefixo do programa radiofônico do Governo Federal “A Voz do Brasil”.
Foi consagrado como cavaleiro da Ordem da Coroa, da Itália. A protofonia, no entanto, só foi incluída na ópera em sua primeira apresentação no Brasil, que aconteceu em 2 de dezembro de 1870, no Teatro Lírico Fluminense. Casou-se com a pianista bolonhesa Adelina Peri e firmou-se como compositor erudito de prestígio internacional, dividindo-se entre o Brasil e a Itália. Obteve apoio oficial da Princesa Izabel e tencionava tornar-se diretor do Conservatório de Música do Rio de Janeiro, mas com a proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, decidiu fixar residência na Itália. Após passar pelos Estados Unidos, Espanha e Portugal, voltou ao Brasil, em 1895, indo para Belém, no Pará, onde o governador Lauro Sodré criou o Conservatório de Música de Belém, nomeando-o diretor. Três meses depois de tomar posse, já doente, morreu deixando uma vasta obra, quase inteiramente dedicada à música erudita. Sua célebre abertura da ópera “O Guarany” serviu por décadas a fio como prefixo e sufixo musicais para o programa radiofônico “A voz do Brasil”, transmitido em cadeia obrigatória de emissoras entre 19:00 e 20:00 horas, de 2ª a 6ª feiras para todo o país em AM e FM. Em 1940, suas modinhas “Quem sabe?”, com Bittencort Sampaio, e “Conselhos” foram gravadas na Columbia por Cândido Botelho. Em 1950, a abertura da ópera “O Guarani” foi executada pela Banda do Corpo de Fuzileiros Navias no gramado do estádio do Maracanã, por ocasião da partida entre Brasil x México marcando a abertura da Copa do Mundo daquele ano disputada no Brasil.
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