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Zezé Motta

Maria José Motta
27/6/1944 Campos, RJ

Crítica

Zezé Motta: uma síntese arrebatadora
Desde que a conheci, e isso há décadas, fiz-me seu devoto. Esta unção ficou desde sempre aclarada e inamovível. Creio que o primeiro “oh!” para a consolidação do meu zezeismo ocorreu ao vê-la no palco em “Hair”.
Embora ainda ao começo, ela já ostentava, opulentemente, cabeça, tronco e membros. Além de voz, de beleza, de maneios, de carisma. Lembro-me de que sai do teatro - seria o extinto República? - e fui tomar umas e outras no Bar Luiz, com amigos. Aliás não falei de outra coisa,  senão na estrela que ela já antecipava ser. Com a experiência de ouvir centenas de vidas nos depoimentos para a prosperidade no Museu da Imagem e do Som, logo me bateu a certeza do sucesso de Zezé, antecipando-lhe, inclusive, uma carreira internacional. O que de fato logo aconteceria quando o profético Cacá Diegues fez dela a Xica da Silva, o mais radioso e estonteante personagem da história do cinema no Brasil. Tanto que passei a incluir Zezé nos cursos sobre MPB que ministrei centenas de vezes em todo o país (quase sempre solicitado por Manuel Diegues – vejam a coincidência – o pai do mesmo Cacá). Meu fervor pela cantora-atriz ia a ponto de compará-la, sem papas na língua, à uma Carmen Miranda dos anos 70/80. Só que com vantagens: a cor, a voz, a audácia, o corpo. De igual para igual só mesmo os olhos, ambos fulminantes na luz de vida e brilho que emitiam.
Comparando as duas, faltou à Zezé (muitíssimo mais apetecível que Carmen) apenas Hollywood e uns showzinhos na Broadway. Mas, com ou sem carreira internacional, com o tempo passando ou não, Zezé Motta foi e é uma estrela.
Cintila a cada vez que canta, projetando sempre a luz incandescente dos olhos, que nos embriaga pelo charme e vivacidade de sua vida e de sua arte.
Zezé – que nasceu em Campos (RJ), de família muito pobre – é bem o exemplo de auto-afirmação de sua raça, já que teve de lutar contra tudo, especialmente a barreira do preconceito social e – o mais trágico – do racial. Seu talento avassalador passou por cima de tudo como um trator e fez dela uma atriz, logo depois cantora, ou vice-versa, tanto faz.
Quando ela estava por fazer quarenta anos, há um tempinho atrás, eu me ofereci a ela – musa minha e inspiração declarada – para fazer a chamada festa de arromba. E no que foi feita, tanto ela, quanto eu toda a gente carioca podemos reconhecer o quanto Zezé atingia o coração de todos. Foi um deus-nos-acuda de gente que chegava à festa a não mais acabar, todos rindo de orelha a orelha para homenagear a talvez mais querida dentre as cantatrizes do Brasil. A festa de Zezé, programada para 50 amigos, terminou numa consagração de centenas de afetos.
Costumo dizer que Zezé Motta irradia uma luz – um farol de avião – que existe dentro dela e que já iluminou o mundo através da magistral Xica da Silva, quando ela construiu, a meu ver o personagem feminino mais sedutor do cinema brasileiro.
Ao tempo em que o filme de Cacá Diegues rodava o mundo todo, recebi um convite para ser consultor dum filme americano sobre Carmem Miranda. Para surpresa dos produtores, indiquei Zezé Motta para viver a Pequena Notável.
Os gringos tomaram um susto inicial e acharam a minha dica uma piada. Até o momento que, por insistência minha, viram Xica da Silva em vídeo. E se renderam ao magnetismo da nossa negra soberba que iria fazer possível o impossível, isto é, mudar a cor da Carmem Miranda. O projeto só não deslanchou em Hollywood porque o estúdio envolvido – era o começo dos anos 80 – teve que se agrupar a outra mega-empresa.
O Rio de Janeiro fica “a espera que Zezé cumpra o vaticínio que lhe fiz, ou seja, tornar-se uma estrela internacional. Méritos, bagagem e charme ela tem para dar e vender. E, cá pra nós, alguém pode representar melhor o talento brasileiro que ela?
Ricardo Cravo Albin

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