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Vinicius de Moraes

Marcus Vinícius da Cruz de Melo Morais
19/10/1913 Rio de Janeiro, RJ
9/7/1980 Rio de Janeiro, RJ

Crítica

Saudade, muita saudade do poetinha. Aliás, eu sempre considerei a palavra “poetinha” um tanto inapropriada a Vinícius, um poetão, um poetaço. Porque o diminutivo havia sido usado pejorativamente pelo General Costa e Silva quando lhe cassou a carreira de diplomata pelo AI-5 (em 13 de dezembro de 1968), com o agravante insultuoso do acréscimo do adjetivo vagabundo.

Vinícius de Moraes – que nunca foi um poetinha qualquer e muito menos um vagabundo – será lembrado não só como o maior lírico do seu tempo senão também como o maior letrista da MPB, uma síntese sofisticada de Orestes Barbosa e Noel, se me permitem o desvario das comparações inexatas.

Vinícius, um ser humano plural, até pelo vaticínio da letra S em seus dois nomes, não foi somente isso. Ele foi muitíssimo mais. Além de letrista, era compositor, e dos bons. Aí estão jóias que não me deixam mentir, como “Serenata do Adeus” ou “Medo de Amar”, duas canções dotadas de insinuantes melodias.

Vinícius, logo depois de cassado pela truculência do AI-5, me disse, em noite de desconsolo no Antonio’s, que iria dar um troco na ditadura, fazendo shows para os universitários do Brasil. Dito e feito. Tanto que o espetáculo “O poeta, a moça e o violão” (com Toquinho de um lado e do outro Maria Creuza, ou Maria Bethânia, ou Clara Nunes, ou Maria Medaglia) representou um farol de luz, beleza e dignidade na noite daqueles anos de chumbo. Nos anos 70, pois, enquanto muitos de seus melhores amigos estavam exilados, Vinícius resistia, dardejante, jogando beleza e verdade de suas músicas com Toquinho, seu derradeiro parceiro, as canções mais cantadas da década, lado a lado com os sambas de Martinho da Vila.

Pois bem, a importância de Vinícius de Moraes como personagem da música e poesia brasileiras ainda precisa ser avaliada. A meu ver, ela foi muito maior do que se pensa. Agora, o que não pode mesmo ser medido é a importância do hoje mito como ser humano. A não ser pelos que tiveram a felicidade de conviver com ele. Eu, por exemplo, jamais topei com ninguém pela vida com tal carga de generosidade. Vinícius era um bom, na melhor acepção da palavra.

Inicialmente que o digam suas quase dez ex-mulheres. Ao acabar o amor, imortal naturalmente, enquanto durasse, Vinícius saía de casa apenas com a escova de dente. O resto (casa, carros e “otras cositas más”) ele largava para lá e ia em frente.

Nós, seus muitos amigos, éramos freqüentes testemunhas de sua generosa delicadeza. Pequeninos gestos de grandeza definiam-lhe a dimensão: dar sempre esmola a um pedinte ou pagar a conta de bar para amigos mais necessitados eram atos corriqueiros no dia-a-dia do poeta.

Não se pense, contudo, que Vinícius fosse um santinho de altar. Ele adorava destilar sua fina ironia, mas com o cuidado de não ferir ninguém muito profundamente.

Certa vez, em roda do Conselho de Música Popular, do MIS, de que Vinícius era integrante, seu também advogado, o pianista Mário Cabral, desancou um certo compositor da moda. Enquanto todos os demais conselheiros ajudavam a apedrejá-lo, Vinícius, quietinho no seu canto, não emitiu uma só palavra, a não ser quando lhe solicitei uma opinião. E ele: “ – Vocês estão muito radicais. O rapaz até que é simpatiquinho. Não é que eu goste, mas aqueles bolerinhos dele me dão uma certa saudade. Uma saudadinha até interessante. E vocês sabem, música é como mulher, tem que inspirar algum sentimento. Mesmo um cheirinho inda que quase inodoro...”









Ricardo Cravo Albin

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