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Soul Brasileiro



Dados Artísticos

Segundo o jornalista e poeta manauara Simão Pessoa, em seu livro "Funk - A Música que bate - Uma revolução sonora que conquistou o planeta", o termo soul music ("música da alma") surgiu nos EUA para designar um tipo de música profundamente influenciada pelo gospel, cantado pela comunidade negra norte-americana. Apesar de sua origem religiosa, o gênero é marcado por apresentar um ritmo bastante sensual, tanto na interpretação como no modo de ser dançado. Com o surgimento de gravadoras como a Motown que, entre outros, revelou compositores como Marvin Gaye e intérpretes como Diana Ross. Artistas como Aretha Franklin e James Brown popularizaram o gênero nos EUA e no mundo. Ainda de acordo com Simão Pessoa:   "Nos seus primódios, o soul mostrou-se um negócio extremamente lucrativo, que colocou em oposição, pela conquista do mercado consumidor negro as duas escolas mais prolíficas desse estilo. De um lado do campo a gravadora Atlantic, de Nova York, que tinha a Stax, de Memphis, sul dos EUA, como uma de suas subsidiárias. Do outro lado, a Motown, gravadora instalada em Detroit, cidade ao norte do país. Em vez de didatismo barato, indicar cidades e regiões dos EUA que abrigaram a Stax e a Motown é importante para entender a formação das duas correntes principais do soul. Se os brancos misturaram o rhythm’n’blues com o hillbilly, gerando o rockbilly que deu origem ao rock, os negros misturam o rhythm & blues com o gospel, gerando o soul que deu origem à linhagem funk".   De acordo com o pesquisador e poeta carioca Euclides Amaral, no livro "Alguns Aspectos da MPB", 2ª edição Esteio Editora, lançada no ano de 2010:   "No início da década de 1970 o soul music fazia sucesso no Brasil. Os principais artistas por aqui conhecidos eram James Brown e sua banda JB’S, George Clinton, Sly & The Family Stones, Aretha Franklin, Ray Charles, Otis Redding, Marvin Gaye, Stevie Wonder, Jackson Five, Isaac Hayes, Smoker Robinson, Lionel Ritche e grupos vocais como The Miracles, Temptations, Pretenders, Supremes, The Stylistics e Blue Magic, entre outros, a maioria, artistas das gravadoras Atlantic Recording Corporation, fundada em Washington pelo turco Ahmet Ertegun em 1947 e da Motown, fundada em etroit em 12 de janeiro de 1959 por Berry Gordy Jr. No Basil este gênero fez surgir diversos compositores e intérpretes, entre os mais conhecidos estavam Dom Salvador e Grupo Abolição, Tim Maia, Carlos Dafé, Sandra de Sá, Tony Tornado, Gérson King Combo, Hyldon, Lady Zu, Cassiano e Banda Black Rio. Estes artistas, entre outros da época, faziam apresentações nos bailes suburbanos e muitos deles trabalhavam com ‘play-back’ com apoio das equipes de som como a Soul Grand Prix (de Mr. Paulão e Dom Filó), Messiê Limá, Big Boy, Ricardo Lamournier, Mr. Funky Santos, Ademir Lemos (falecido em 1993), A Cova, Saturno, Cash Box e a equipe 'Som 2000 e Guarani 2000', de Rômulo Costa e Gilberto Guarani, que mais tarde foi rebatizada para 'Furacão 2000', graças ao Presidente da República Humberto de Alencar Castelo Branco (1900-1967) que ao ouvir, na cidade de Petrópolis, o som produzido pela equipe no Quitandinha Santa disse que aquilo que ouvia não era Som 2000, nem Guarani, é um furacão. Daí Rômulo Costa apostou na sugestão e alterou o nome da equipe de som".   No entanto, no Brasil, sua influência, do soul music americano, começou a ser notada apenas no início dos anos 70, graças aos DJs Big Boy e Ademir Lemos que, através dos seus programas de rádio e dos "Bailes da Pesada" - organizados na cervejaria carioca Canecão - , passaram a unir a grupos de rock artistas como Wilson Picket e grupos como Kool & The Gang. Contudo, quando a casa resolveu se especializar em artistas da MPB, o baile passou para clubes dos subúrbios cariocas, onde a penetração da soul music e do funk era maior. Em meados da mesma década, foi formada a equipe Soul Grand Prix, embrião de equipes hoje famosas como a Furacão 2000, que começou a lotar as quadras dos clubes e gerou o que se convencionou chamar de era de ouro dos bailes black. Essa penetração social, principalmente em camadas da população negra que se identificavam com a postura 'black power' dos artistas norte-americanos de funk, logo resultaria no Movimento Black Rio. Daí surgiram nomes importantes como Cassiano e seu grupo Os Diagonais (também integrado por Hyldon, em início de carreira), Gérson King Combo, Tony e Frank, Banda Black Rio, Carlos Dafé, Tony Tornado, Sandra de Sá e Dom Mita. Porém, sem dúvida, o maior nome do soul brasileiro a despontar na década de 1970 foi Tim Maia. Quando voltou dos Estados Unidos, depois de ser deportado por porte de maconha, o músico trouxe em sua bagagem um vasto conhecimento sobre o que estava acontecendo na música negra norte-americana. Contudo, só conseguiria mostrar o seu trabalho a partir do final dos anos 60 e início dos 70. Seguindo seus passos, Sandra Sá (que anteriormente havia sido cantora da Banda Black Rio) e Ed Motta foram os principais nomes dos anos 80. No final desta década, de 1980, a música negra brasileira, sob influência da música norte-americana, começou a adotar estilos como o rap, marcados pela bateria eletrônica, pelo modo de cantar falado e com forte crítica social quanto às condições da comunidade negra. Nomes como Run DMC e Afrika Bambaataa & The Soul Sonic Force faziam sucesso nos bailes funk. Nesta época, também surgiu o que se convencionou chamar de "charm", uma variação romântica, menos agressiva e contestadora do que o rap e o hip hop. Dessa forma, na década de 1980, a maioria dos artistas brasileiros, influenciados pela música negra norte-americana, seguia um estilo ou outro. Segundo o pesquisador Euclides Amaral:   "No início da década de 1980 a sonoridade do soul music mudou para o Miami bass, com as batidas graves acentuadas, daí o título de um dos principais desdobramentos sonoros do funk. Este modelo de batida fora usado anteriormente por James Brown em 1965 na composição "Papa's got a brand new bag", mais ou menos "Papai conseguiu algo novo e excitante", no qual a sessão rítmica do contrabaixo era sincopada no primeiro compasso (backbeat), criando o funk americano, gênero próximo ao soul music. Apesar de o nome ser o mesmo, o funk na acepção antiga (décadas de 1970/80, no Brasil e nos E.U.A) e o funk da década de 1990 têm certas semelhanças e diferenças, contudo não são as mesmas coisas. Inclusive há quem defenda que não deveria ter este nome "Funk" e sim "Fank Carioca". A primeira geração do funk era engajada no conceito de negritude e com o ritmo mais parecido com o soul music (Tim Maia, Carlos Dafé, Sandra de Sá etc) e a segunda geração: Fank (Tati Quebra-Barraco, Bonde do Tigrão, Bonde do Faz Gostoso etc) com valores ideológicos mais dispersos, quase sempre ligados a posicionamentos da relação entre mulher e homem, além do ritmo estar mais para o charm, discoteque e outros sub-gêneros derivados do soul music".  Em 1989, DJ Malboro lançou "Funk Brasil nº 1", o primeiro disco em que os Mc's (DJs ou Mestres-de-Cerimônia) cantam seus fanks. Se até então esses estilos estavam mais restritos às comunidades negras dos subúrbios e favelas cariocas, a partir de 1992 ganharam uma surpreendente visibilidade na mídia. Isso se deveu aos incidentes ocorridos em 18 de outubro do mesmo ano, na praia de Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro, depois de um arrastão provocado por supostos "funkeiros". A partir desse momento, a sociedade passou a associar o funk (fank) à marginalidade organizada das favelas cariocas. Todavia, em São Paulo, o surgimento dos Racionais MCs e outras bandas de rap (um dos desdobramentos do movimento Hip Hop) cujas letras retratavam a violência do cotidiano das comunidades pobres da Zona Sul da cidade, além de selos independentes especializados no gênero, como o Zimbabwe Records, acabaram formando um público fiel e numeroso, que deixou de ser restrito às comunidades carentes nas quais surgiram".   Enquanto isso, em 1995, no Rio de Janeiro, a moda entre a juventude carioca da Zona Sul era subir a favela para participar dos bailes funk (fank) da comunidade. Especialmente o Baile da Paz, realizado no morro do Chapéu Mangueira, localizado no Leme. No mesmo ano, em 1995, o baile foi fechado pela Operação Rio, executada pelas polícias militar e civil em várias favelas da cidade. No ano seguinte, o funk mais melodioso e de temática romântica da dupla Claudinho & Buchecha rompe com o preconceito das FMs em relação a este gênero e torna-se sucesso nacional. O bordão "Ah! Eu tô maluco" passou a ser cantado por torcidas de futebol em todo o Brasil. Por outro lado, a formação de galeras, réplica brasileira das gangues norte-americanas, e a crescente radicalização das letras de MCs como Júnior e Leonardo, com "Rap das armas", e Duda e William, com "Rap do Borel", resultaram na detenção dos últimos e na investigação de autoridades sobre o envolvimento dos organizadores de bailes com traficantes. Na virada do milênio, o gênero "Fank carioca", ou simplesmente FUNK, seguia duas vertentes bem definidas: a primeira, oriunda do "charm", também chamada de 'funk melody', mais comercial e adaptada às exigências do mercado fonográfico e, a segunda, envolvida com as circunstâncias e modo de vida de comunidades carentes, esta última ligada ao movimento hip hop em seu desdobramento poético "rap" (ritmo e poesia), que também detém forte influência do soul music americano. Como exemplo da primeira vertente, são citados Latino, Claudinho (falecido em acidente de carro em 2002) & Buchecha e Copacabana Beat; da segunda, os Racionais, Câmbio Negro, Criminal D & Gangue de Rua, entre outros. Outro aspecto importante, foi a adesão de roqueiros e artistas brancos ao gênero na década de 1990. Fernanda Abreu, que começou a carreira na banda pop-rock Blitz, quando se lançou em carreira solo, adotou o estilo funk-disco music com grande sucesso. Grupos de rock como o Rappa, Boato e Planet Hemp mesclaram as guitarras distorcidas do rock à batida eletrônica do rap e também adotaram o modo falado de se cantar. Pode-se afirmar que, ao lado do rock e do jazz, a soul music é uma das principais influências da música norte-americana na MPB.  Em termos de bibliografia crítica, o assunto foi pouco estudado.  Com relação ao black music do Brasil e seus bailes em clubes da cidade, em 1999, estimou-se que, só na cidade do Rio de Janeiro, os bailes geraram 20 mil empregos e movimentaram R$ 10,6 milhões. Entre os anos 1999 e 2001surgiram diversos grupos e artistas ligados à recuperação do movimento black, seja ele o carioca ou o paulista. Entre os mais importantes estão Serginho Meriti, Marko Andrade, Carlinhos Trumpete, Artigo 86, Banda Clave do Soul, Lúcio Sherman, Seu Jorge (RJ) e banda Funk Como Le Gusta, Skova (SP). No ano de 2002, outros artistas foram recuperados para a grande mídia, sejam lançando novos discos, como é o caso de Lady Zu e Gérson King Combo, ou apenas se apresentando em shows como Carlos Dafé, Cassiano, Claúdio Zoli e Paulo Zdan, entre muitos outros em todo o país. No ano de 2016 foi lançado o livro "1976: Movimento Black Rio 40 Anos", de Zé Octávio Sebadelhe e Felipe Gaoners. Com apoio e patrocínio da Empresa Natura e Natura Musical, Lei Federal de Incentivo à Cultura, Prefeitura do Rio de Janeiro e Secretaria Municipal de Cultura, o livro, assim como a exposição de fotos, e o documentário fazem parte das comemorações da passagem dos 40 anos do Movimento Black no Brasil. Segundo o autor do livro e curador do evento, DJ e pesquisador Zé Octávio Sebadelhe:   "... Da mesma forma, o movimento influenciou toda uma geração de artistas que promoveria a mistura entre o samba e a MPB com elementos do soul norte-americano marcando profundamente a música brasileira. No ano de 1976 o movimento chega auge, reconhecido em uma reportagem histórica de Lena Frias no Jornal do Brasil, com fotografias de Almir Veiga. O circuito de bailes e shows de artistas negros ganha repercussão nacional, influenciando mobilizações artísticas e sociais em diversas capitais. Não obstante, o Movimento Black Rio teria continuidade em inúmeras derivações culturais subsequentes como, por exemplo, a onda dos bailes de charme, hip hop Rio e o fenômeno do funk carioca".   Além das fotografias de Almir Veiga, a exposição montada no Teatro Odisseia, na Lapa, no Centro do Rio de Janeiro, também contou com design e projeto gráfico de Chris Lima, supervisão musical de William Magalhães e obras exclusivas de Fábio Ema e Izolag. O músico, cineasta, pesquisador e romancista Marcelo Gularte iniciou o livro "Enciclopédia do Funk", que em 2016, já contava com 320 páginas com histórias e entrevistas com várias pessoas das equipes de som como Soul Grand Prix, Furacão 2000, Modelo, Sua Mente Numa Boa, Rick, Revolução Na Mente e outras mais, além de mais de 500 imagens da época dos bailes na década de 1970 e um grande acervo das felipetas sobre o funk no Rio de Janeiro e São Paulo. Já o discotecário Dom Filó (Asfilófio de Oliveira Filho) iniciou a produção do documentário "Black Rio, Por Onde Andas?", no qual compilou algumas imagens raras e depoimentos de vários personagens da época. Segundo Dom Filó:   "... Em 2015 a Black Rio começou voltar à cena, destaco a volta dos bailes da Soul Grand Prix e teve até duelo de equipes com a Casbox. E o mais importante é que houve atividades na Zona Norte e na Baixada, que sempre foram o foco da Black Rio".   BIBLIOGRAFIA CRÍTICA:   ALBIN, Ricardo Cravo. Dicionário Houaiss Ilustrado Música Popular Brasileira - Criação e Supervisão Geral Ricardo Cravo Albin. Rio de Janeiro: Instituto Antônio Houaiss, Instituto Cultural Cravo Albin e Editora Paracatu, 2006. AMARAL, Euclides. Alguns Aspectos da MPB. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2008. 2ª ed. Esteio Editora, 2010. 3ª ed. EAS Editora, 2014. PESSOA, Simão. Funk - A Música que bate - Uma revolução sonora que conquistou o planeta. Manaus: Coletivo Gens da Selva. Editora Valer, 2000.

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