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Sergio Ricardo

João Lutfi
18/6/1932 Marília, SP

Crítica

Os filmes de Sérgio Ricardo são hoje tão pouco conhecidos quanto valiosos. Ele – que começou com uma curta que é uma jóia, “O Menino da Calça Curta”, 1961, (em parceria com Nelson Pereira dos Santos e que ganhou prêmios em diversos festivais do mundo) – prosseguiu com o segundo curta “Esse Mundo é Meu” (montagem de Ruy Guerra), também ótimo, especialmente pela música-título, uma pura obra-prima da MPB. Aliás, como nunca ouço comentários mais vivazes sobre o cineasta Sérgio Ricardo, quero registrar aqui meu pasmo pelo silêncio que se faz sobre seus dois maravilhosos longas, os musicais “Juliana dos Anos Perdidos” e “Noite do Espantalho” (rodado em Nova Jerusalém, PE). Nunca esquecendo, é claro, das suas trilhas sonoras para “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (uma outra obra-prima) e “Terra em Transe”, ambas de Glauber.

Fechado os parênteses para saudar o cineasta, vamos ao que interessa, o Sérgio compositor. E que compositor! Outro dia, reouvindo Maysa, me deparei com “Buquê de Isabel”, de 1958, o primeiro sucesso de Sérgio, em pleno começo da bossa nova. Mesmo aí, na felicidade eterna apregoada na primeira fase dos padrões literários bossa novistas, o nosso Sérgio já sinaliza seu sentimento para a comiseração e para a solidariedade. Apesar da deliciosa “Pernas” – cuja dona nunca soube quem era – Sérgio Ricardo logo abandonaria o “sol – sal – mar – azul” do começo do novo movimento musical para enveredar por caminhos mais barras pesadas. Logo ele, cuja titularidade para exercitar a bossa nova vinha desde 1952, quando substituiu como pianista Tom Jobim em boate de Copa, ocasião em que era admirado por gente como Johnny Alf e João Gilberto.

Na efervescência dos anos iniciais da década de 60 Sérgio lançou um marco da MPB. O seu “Zelão” (“Todo o morro entendeu/quando Zelão morreu) foi muito mais que uma chicotada de ferro e fogo na pasmaceira dourada em que ainda gravitava a bossa nova. Zelão ajudou a abrir as consciências telúricas de seu tempo, juntando em torno da denúncia músico-social personalidades como Nara Leão, Geraldo Vandré, Carlos Lyra, etc.

Denúncia, participação, solidariedade era – e sempre foram – palavras de ordem de Sérgio Ricardo. Levadas a uma consequência de pura ira pessoal no episódio que envolveu sua participação no II Festival de MPB da TV Record em São Paulo (1967), quando, ao tentar cantar sob vaias “Beto Bom de Bola”, ele parou a música, soltou um sonoro palavrão e arremessou o violão para o público. Com fúria.



Ricardo Cravo Albin

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