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Samba



Dados Artísticos

No Rio de Janeiro a partir de 1850, mais especificamente nas imediações do Morro da Conceição, Pedra do Sal, Praça Mauá, Praça XI, Cidade Nova, Saúde e Zona Portuária foi crescendo a população de negros e mestiços oriundos de várias partes do Brasil, principalmente da Bahia, bem como de ex-soldados da Guerra de Canudos. Estes últimos viriam a formar uma comunidade que eles próprios denominaram de "Favela" - termo que posteriormente viria a ser usado como sinônimo de construções irregulares das classes menos favorecidas. Um dos principais líderes desse tipo de comunidade pobres foi o músico e dançarino Hilário Jovino Ferreira (1855/1933), responsável pela fundação de vários blocos de afoxés e ranchos carnavalescos. Muitas baianas descendentes de escravos alojaram-se nestes bairros, sendo conhecidas como as Tias Baianas. Inconteste a contribuição das Tias do Samba, como eram conhecidas no final do século 19, para a sedimentação da cultura negra, principalmente com relação ao candomblé e ao samba (amaxixado) desta época. Tia Ciata ou Aciata - Hilária Batista de Almeida - (avó do compositor Bucy Moreira) morou inicialmente na Rua da Alfândega, 304 e posteriormente na Rua General Pedra, Rua dos Cajueiros e mais tarde na Rua Visconde de Itaúna, residindo na Cidade Nova entre os anos de 1899 e 1924. Aciata, Ciata ou mesmo com a grafia Asseata, foi uma das responsáveis pela sedimentação do samba-carioca. Diz a lenda que um samba para alcançar sucesso teria que passar pela casa de Tia Ciata e ser aprovado nas rodas de samba das festas, que chegavam a durar dias. Várias composições eram criadas e cantadas em improvisos, caso do samba "Pelo telefone", que viria a ganhar a assinatura de Donga (Ernesto Joaquim Maria dos Santos - 1890/1974) e Mauro de Almeida (jornalista conhecido como Peru dos Pés Frios - 1882/1956), samba para o qual também havia outras tantas versões. Este samba-maxixe é considerado o primeiro a ser gravado, ainda no ano de 1917. Outras tias também foram importantes: Tia Amélia (Amélia Silvana de Araújo - mãe de Donga), Tia Veridiana (mãe de Chico da Baiana), Tia Bebiana, Tia Rosa Olé, Tia Sadata, Tia Mônica (mãe de Pendengo e Carmem Xibuca) e Tia Prisciliana (mãe de João da Baiana). Possivelmente o termo "Samba" é uma corruptela de "Semba" (umbigada), palavra de origem africana, provavelmente do Congo ou Angola, donde vieram a maior parte dos escravos para o Brasil. Uma das grafias mais antigas do termo "Samba" foi publicada por Frei Miguel do Sacramento Lopes Gama, em fevereiro de 1838 na revista pernambucana "Carapuceiro", não se referindo ao gênero musical, mas sim a um tipo de folguedo popular de negros da época. Segundo o pesquisador Hiram Araújo, na Bahia, ao longo dos séculos, as festas de danças dos negros escravos eram chamadas de "Samba". Com o passar dos anos, a dança "Samba", sempre conduzida por diversos tipos de batuques, assumiu características próprias em cada estado, não só pela diversidade das tribos de escravos, como pela peculariedade da região em que foram assentados. Entre os tipos de danças populares mais conhecidas, destacamos Samba-lenço, Samba-rural, Tiririca, Miudinho e Jongo (São Paulo); Tambor-de-crioula ou Ponga (Maranhão); Samba-corrido, Samba-de-roda, Bate-baú, Samba-de-Chave e Samba-de-barravento (Bahia), Bambelô (Rio Grande do Norte), Coco (Ceará), Trocada, Coco-de-parelha, Samba de coco e Coco-travado (Pernambuco) e Partido-alto, Miudinho, Jongo e Caxambu (Rio de Janeiro). Quanto ao vocábulo "samba", existem várias versões de seu nascedouro. Uma delas diz ser originário do árabe, mais precisamente mouro, quando da invasão desse povo à Península Ibérica no século VIII, sendo o termo original "Zambra" ou "Zamba".  Há quem diga que é originário de um dos muitos dialetos africanos, possivelmente do Quimbundo: "Sam" = dar, "Ba" = receber, ou ainda "Ba" = coisa que cai. Em 1927 surgiu a primeira das escolas de samba, a Deixa Falar, no bairro do Estácio de Sá, vizinho ao afamado quarteirão boêmio carioca da Lapa. Inicialmente era um Rancho Carnavalesco, posteriormente Bloco Carnavalesco e por fim, Escola de Samba, tendo como fundadores alguns compositores do bairro do Estácio, entre eles Ismael Silva, Alcebíades Barcelos (Bide), Armando Marçal e Rubem Barcelos, de uma turma também  integrada por Mano Elói, Nilton Bastos, Aurélio, Baiaco, Brancura e Mano Edgar. Estes compositores fizeram com que o samba fosse devidamente ritmado de forma que pudesse ser acompanhado no desfile, distanciando assim do andamento amaxixado de outros compositores como Sinhô. Oficialmente como Escola de Samba, a Deixa Falar desfilou apenas em 1929, 1930 e 1931, quando encerrou  as atividades como Rancho Carnavalesco de segunda categoria,  devidamente pobre e sem expressão maior perante à comunidade. O samba ao longo dos anos tem se apresentado com muitas variantes rítmicas. Dentre as mais conhecidas destacamos o samba-de-breque, samba-exaltação, samba-de-terreiro, samba-enredo, sambalanço, samba-de-quadra, sambalada, samba-chulado, samba-raiado, samba-coco, samba-choro, samba-canção, samba-batido, samba-de-partido-alto e samba de gafieira. O partido-alto, segundo Nei Lopes, é considerado como a forma de samba que mais se aproxima da origem do batuque angolano, do Congo e regiões próximas. Contudo, quando surgiu, no início do século XX, pelo menos na casa da Tia Ciata, esse termo era usado inicialmente para designar música instrumental. O Samba-raiado é uma das variantes que tem influência da música sertaneja/rural, variante muito comum no início do século, ainda com forte influência do samba-rural baiano e trazido para o Rio de Janeiro pelas Tias Baianas e sendo ainda visto como uma variante do Samba-de-roda. O Samba-maxixe era muito influenciado pela dança homônima e tocado basicamente ao piano. Teve como expoente o compositor Sinhô (José Barbosa da Silva - 1888/1930), que detinha a alcunha de "O Rei do Samba". O Samba-enredo, juntamente com as Escolas de Samba que galgaram estágios de aceitação, admiração e paternalização através dos anos, tornou-se um dos símbolos nacionais. Pesquisadores discutem se o samba virou bem de consumo ou não, e se houve ou não a ascensão social do sambista. Inicialmente o samba-enredo não tinha enredo. Com a entrada do Estado (mais propriamente o Estado Novo, no ano de 1937) na organização dos desfiles, foi criada uma contra partida, a de os temas serem sobre a história oficial do Brasil. Samba-canção: Surgido na década de 1920 e firmando-se na década seguinte, esta forma de "amaciamento" do samba, segundo Ruy Castro, inicialmente tinha influência do fox e na década de 1940, do bolero. Se o "Samba de morro" tratava de temas diversos como malandragem, mulheres comportadas, favelas, esperteza etc, o samba-canção mudou o foco para o lado subjetivo das dores e ingratidões, principalmente pela ótica do sofredor amoroso, tendo como resquício a temática do bolero, então em voga. O samba-canção tinha como ênfase musical a melodia, geralmente de fácil aceitação. Henrique Vogeler, Custódia Mesquita, João de Barro, Ary Barroso, Fernando Lobo, Dolores Duran, Ismael Neto, Antônio Maria e tantos outros se utilizaram do samba-canção para compor grandes clássicos da MPB, como "Ai, Iôiô", "Risque", "No rancho fundo", "Copacabana" e "Ninguém me ama". No final da década de 1950, com o surgimento da bossa-nova, o samba-canção com sua temática mais voltada para a 'fossa' foi sendo um pouco esquecido e dando vez a temas mais ligados à praia, ao mar, ao sol e ao sal,  dentre outros temas mais amenos, cultivados por essa nova geração de compositores como Mário Telles, Carlos Lyra, Ronaldo Boscoli e Roberto Menescal, entre outros, liderados pelo grande poeta Vinicius de Moraes, que também faziam uso do samba em seu compasso 2/4, influenciados pelo violão jazz-cool de Barney Kessel e a voz de Julie London no LP "Julie is my name". Pouco depois, esses compositores, sedimentados pela batida do violão de João Gilberto e as composições de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, formariam o núcleo central de um novo movimento denominado Bossa Nova. O Sambalanço é considerado um sub-produto da Bossa-Nova e muito utilizado em bailes suburbanos das décadas de 1960 a 1980. Dos artistas e grupos mais importantes destacam-se Ed Lincoln e Seu Conjunto, Os Devaneios, Grupo Joni Mazza, Bebeto, Copa 7, Bedeu, Luiz Wagner e Dhema. Anos mais tarde, já no século XXI, os grupos paulistas Funk Como Le Gusta e Clube do Balanço deram continuidade aos bailes e mantiveram este sub-gênero. O samba-funk surgiu no final da década de 1960 com o pianista Don Salvador e o seu Grupo Abolição (Rubão Sabino, Luiz Carlos Batera, Barrosinho, Oberdan, Zé Carlos, Serginho Trombone e Darcy Trumpete), que já mesclavam samba com o funk americano, ritmo recém chegado dos Estados Unidos. Com a ída definitiva de Don Salvador para os Estados Unidos, o grupo encerrou as atividades. No começo dos anos 70 alguns ex-integrantes do Grupo Abolição: Luiz Carlos Batera, Barrosinho e Oberdan juntaram-se a Cristóvão Bastos, Jamil Joanes, Cláudio Stevenson e Lúcio da Silva e formaram a Banda Black Rio. A banda aprofundou ainda mais o trabalho de Don Salvador na mistura do compasso binário do samba brasileiro com o quaternário do funk americano, calcado na  dinâmica de execução, conduzida pela bateria e baixo. Exemplos do repertório autoral da banda são: "Maria fumaça" (Oberdan e Luiz Carlos Batera), "Mr. Funk Samba" (Jamil Joanes), "Caminho da roça" (Oberdan e Barrosinho) e "Metalúrgica" (Cristóvão Bastos e Cláudio Stevenson), composições nas quais o trabalho da banda mesclou funk e samba. O sucesso e reconhecimento da banda veio com a inclusão da música "Maria Fumaça" (1977) na novela "Loco-motivas", da Rede Globo. Em 1978 a banda gravou o LP "Gafieira universal", no qual aprofundou ainda mais a mescla dos ritmos e acompanhou Caetano Veloso em turnê. A banda encerrou as atividades em 1980 após gravar o último disco "Saci-Pererê". Na década de 1990 DJs ingleses passaram a divulgar o trabalho da banda e o ritmo fora redescoberto em toda a Europa, principalmente na Inglaterra e Alemanha. Quanto ao pagode é basicamente outra forma de samba e é dividido em duas tendências: a primeira mais ligada ao partido-alto, conservando a linhagem sonora e fortemente influenciada por gerações anteriores. Entre os artistas que se destacam a partir da década de 1980 estão Jovelina Pérola Negra, Almir Guinéto, Dona Ivone Lara, Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e a dupla Arlindo Cruz e Sombrinha, Quinteto em Branco e Preto, Grupo Semente. Na segunda tendência, considerada mais "popular", isto já na década de 1990 em diante, estão Raça Negra, Só Pra Contrariar, Grupo Pirraça, Harmonia do Samba, Irradia Samba e Kaô do Samba, entre outros, mas não considerados com a mesma qualidade sonora e de letra, sendo reconhecidos como "pagode-romântico". No livro "O samba na realidade...", de Nei Lopes, o autor enumera quatro princípios básicos para o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, do qual era diretor. Um desses princípios diz respeito à movimentação dos sambistas da escola no desfile, o que serve para explicitar a 'dança' do samba:   "Samba mesmo é no passo curto, é drible de corpo, é 'no faz que vai, mas não vai', é no passo largo cheio de ginga, é no balançar dos braços, é no girar constante da cabeça, mostrando um sorriso contagiante, uma combinação improvisada de movimentos que ninguém do mundo consegue fazer igual ao brasileiro".   O samba, além de ritmo e compasso definidos musicalmente, traz historicamente em seu bojo toda uma cultura de comidas (pratos específicos para ocasiões), festas, roupas (sapato bico fino, camisa de linho etc), danças variadas (miudinho, coco, samba de roda, pernada etc) e ainda a pintura naif, de nomes consagrados como Nelson Sargento, Guilherme de Brito e Heitor dos Prazeres, para citar apenas três pintores, além de artistas anônimos das comunidades (pintores, escultores, desenhistas e estilistas) que confeccionam as roupas, fantasias, alegorias carnavalescas e os carros abre-alas das escolas de samba. No início da década de 1960 foi criado o "Movimento de Revitalização do Samba de Raiz", promovido pelo Centro de Cultura Popular (CPC) em parceria com a UNE. Foi o tempo do aparecimento do Zicartola, dos espetáculos de samba no Teatro de Arena e no Teatro Santa Rosa e de musicais como "Rosa de Ouro". Foi a época do aparecimento de grupos como "Os Cincos Crioulos" (Anescarzinho do Salgueiro, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho e Paulinho da Viola, substituído por Mauro Duarte), "A Voz do Morro" (Anescarzinho do Salgueiro, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Nelson Sargento, Oscar Bigode, Paulinho da Viola, Zé Cruz e Zé Kéti), "Mensageiros do Samba" (Candeia e Picolino da Portela), "Os Cinco Só" (Zuzuca do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, Wilson Moreira, Zito e Velha), todos com experiência anteriores no universo do samba e músicas gravadas por grandes nomes da MPB. Tempo também do aparecimento do chamado "Samba-empolgação" dos blocos carnavalescos "Bafo da Onça" (Catumbi), "Cacique de Ramos" (Ramos) e "Bhoêmios de Irajá" (Irajá). Na década seguinte, de 1970, surgiram os termos "Sambão-jóia", "Sambolero" e "ABC do Samba". Muitos críticos usavam o termo "Sambão-jóia" pelo lado pejorativo, como samba de qualidade duvidosa. Outros, perceberam neste termo e nos cantores e compositores a ele relacionado uma certa importância para a MPB. Cantores e compositores como Luiz Ayrão, autor do "Mulher à brasileira", na verdade um samba-enredo para disputa na Portela, em 1978), Benito Di Paula ('Retalhos de cetim'), Jorginho do Império ('Dinheiro vai, dinheiro vem', de Noca da Portela e Vovó Ziza), Antonio Carlos & Jocafi ('Você abusou'), e ainda, no mesmo bolo, Beth Carvalho por cantar sambas como "Vou festejar" (Jorge Aragão, Dida e Neoci Dias) e "Coisinha do pai" (Jorge Aragão, Almir Guineto e Luiz Carlos), logo aceitos por várias faixas sociais e principalmente pela classe baixa, foram considerados por alguns críticos como os artistas de 'qualidade duvidosa'. Estes artistas recolocaram o samba nas principais emissoras de rádio e TV do país, sendo responsáveis por vendas expressivas do gênero na década de 1970. Segundo Luiz Ayrão, o termo "Sambão-jóia" apareceu em uma coluna do Jornal Estado de São Paulo, no final da década de 1970 e atribuía pejorativamente à Beth Carvalho o título de "Rainha do Sambão-jóia", o que causou um grande estigma e mágoa para alguns desses artistas. Por essa mesma época, surgiu também o termo "ABC do samba", relacionado às cantoras Alcione, Beth Carvalho e Clara Nunes, quando elas conseguiram bater recordes de venda. Interessante assinalar que também não foram vistas com bons olhos por muitos críticos por ter direcionado seus repertórios para ritmos afro-brasileiros, principalmente o samba, pois como está grafado na história de cada uma delas, nenhuma começou exatamente como sambista. Em São Paulo surgiu o cantor e compositor Geraldo Filme, um dos sambistas da Barra Funda, reduto do samba paulistano, frequentador também das rodas de "Tiririca" - tipo de disputa com pernadas ao ritmo de samba - no Largo da Banana. Geraldo Filme, em parceria com Plínio Marcos, montou os espetáculos "Balbina de Yansã" e "Pagodeiros da Pauliceia". Outros sambistas de São Paulo, também importantes, são Germano Mathias, Osvaldinho da Cuíca, Thobias da Vai Vai, Aldo Bueno e Adoniran Barbosa, este último já devidamente reconhecido nacionalmente por esta época, mas regravado e relembrado com mais frequência nos anos 70. Ainda em São Paulo, Benito Di Paula foi "classificado" como "sambolero", usando frequentemente em suas apresentações piano, timba e chimbau. Em Salvador os compositores Riachão, Panela, Batatinha, Garrafão e Goiabinha foram seguidos por Tião Motorista, Chocolate, Nélson Balalô, J. Luna, Edil Pacheco, Ederaldo Gentil, Walmir Lima, Roque Ferreira, Walter Queirós, Paulinho Boca de Cantor e Nélson Rufino, que mantiveram a tradição dos sambas-de-roda e samba-coco, quase todos despontados para um maior reconhecimento a partir da década de 1970. No final desta mesma década um grupo de cantores e compositores fazia uma roda de samba embaixo da tamarineira, na quadra do Bloco Carnavalesco Cacique de Ramos, no subúrbio carioca de Ramos. Entre os que ficariam conhecidos anos depois, estavam Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Sombrinha, Deni de Lima, Luiz Carlos da Vila, Carlos Sapato, Neoci, Dida, Bira Presidente, Ubirani, Almir Guineto, Sereno, entre outros. Alguns instrumentos davam uma sonoridade peculiar àquele grupo, como banjo com braço de cavaquinho criado por Almir Guineto e o tantã, criado por Sereno. A própria formação sonora era um pouco diferente com tantã e repique-de-mão. Alguns desses músicos viriam a ser reconhecido quando Beth Carvalho os convidou para participar de seu disco "Pé no chão", de 1978, produzido por Rildo Hora. Dois anos depois o grupo, com o nome de Fundo de Quintal, lançava o primeiro disco pela RGE e estava formatado o pagode carioca, que viria a influenciar todas as gerações de sambistas posteriores. Na década de 1980 despontaram para o sucesso Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Fundo de Quintal, Dona Ivone Lara. Na década de 1990 as grandes gravadoras criaram o "Pagode-romântico" e lançaram centenas de grupos e artistas paulistas, mineiros e cariocas, que fizeram músicas de qualidade inferior, mas que devido à massificação nas rádios e TV foram responsáveis por uma melhora na arrecadação de direitos autorais, fazendo com que as músicas americanas ficassem em segundo lugar em arrecadação, coisa inédita no Brasil. No início do século XXI o samba retoma a tradição do partido-alto a partir do ano 2000, quando surgiram diversos artistas em vários estados. No Rio de Janeiro surgiram Teresa Cristina e Grupo Semente, Dorina, Eliane Faria, Marquinhos de Oswaldo Cruz e tantos outros que contribuíram para a revitalização da Lapa, no Rio de Janeiro. Em São Paulo o samba retomou a tradição com shows no Sesc Pompeia e ainda através do trabalho de vários grupos, entre eles, o grupo Quinteto em Branco e Preto que desenvolvia o evento "Pagode da Vela", tudo isso fez com que vários artistas do Rio de Janeiro, além de shows, fixassem residência em São Paulo, São Matheus, Santos e pequenas cidades e bairros periféricos da capital. Na década de 1930, organizados por Paulo da Portela, sambistas de Madureira e Oswaldo Cruz, subúrbios do Rio de Janeiro, após um dia de trabalho, voltavam para Oswaldo Cruz no trem das 18h5min. Em um desses vagões organizavam reuniões e discutiam a organização do carnaval, sempre com muito samba. No ano de 1995 outro compositor, Marquinhos de Oswaldo Cruz, reorganizou o "Pagode do Trem", fazendo com que o evento entrasse para o calendário turístico da cidade do Rio de Janeiro, sendo apresentado no dia 2 de dezembro, "Dia Nacional do Samba". No ano de 2004 o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, apresentou à UNESCO o pedido de tombamento do gênero "Samba", sob o título de "Patrimônio Cultural da Humanidade", na categoria "Bem Imaterial", através do Instituto Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). No ano seguinte, em 2005, o samba-de-roda do Recôncavo Baiano foi proclamado pela Unesco "Patrimônio da Humanidade" na categoria de "Expressões orais e imateriais". No ano de 2007 o IPHAN conferiu registro oficial, no Livro de Registro das Formas de Expressão, às matrizes do samba do Rio de Janeiro: samba de terreiro, partido-alto e samba-enredo. Neste mesmo ano, de 2007, o samba - gênero pela primeira vez gravado 90 anos antes, por Donga com seu "Pelo telefone" (Donga e Mauro de Almeida) - foi celebrado no Instituto Cultural Cravo Albin com o evento "Da cachaça ao champanhe", com a presença de Vó Maria, viúva de Donga, e a Ala das Baianinhas do Império Serrano. O ato teve lugar na sede histórica do Largo da Mãe do Bispo, sede do ICCA na Urca. No ano de 2016 o crítico Ricardo Cravo Albin publicou, em sua coluna semanal, no jornal "O Dia" o texto "A polêmica do samba", no qual ressaltava a importância do reconhecimento da memória do compositor Donga, pelas autoridades governamentais, entidades carnavalescas e brasileiros em geral, pela relevância do gênero como unidade nacional:    "As datas precisas são por vezes imprecisas. Esta possibilidade audaciosa pode representar o desabrochar de polêmicas. Quando não de dilemas, que quase sempre provocam dilaceramentos de pensamentos subjetivos. Ou seja, caraminholas diversas nas cabeças dos que têm mais, ou menos, imaginação. A polêmica que proponho embute um possível dilema. E assesta sua bateria para a data do nascimento do "Samba", gênero musical que melhor representa o Brasil. Donga começou e concluiu a música "Pelo Telephone", entre 1915 e 1916, inspirada a ele por cantorias e folguedos afro-brasileiros na casa de uma senhora chamada Tia Ciata, festeira, quituteira e ialorixá (dirigente de candomblé) na antiga Praça XI, reduto de bambas e batuqueiros, quase todos ex-escravos. Ao final de 1916, a peça veio a ser registrada na Biblioteca Nacional, com o indicativo de "samba", designação nunca antes usada para definir o gênero musical de uma determinada música. Donga, querido amigo meu desde o comecinho do Museu da Imagem e do Som, quando criei os "Depoimentos para a Posteridade", de que ele foi dos primeiríssimos a depor a meu convite, chegou a dizer que teria sido o seu parceiro Mauro de Almeida, jornalista conhecido como Peru dos Pés Frios, que o estimulara a registrar a peça de ambos na austera Biblioteca Nacional. E isso mesmo antes de ela ser gravada, ao começo de 1917, pelo cantor Bahiano, da Casa Edison, destinando-a oficialmente ao carnaval do mesmo ano, realizado semanas depois. Pois bem, maturada entre 1915 e 1916, seria ela apenas anotada ao finalzinho de 1916 na Biblioteca, procedimento que de pouco lhe valia. Mas seu nascimento formal ocorreu em 1917. Primeiro, foi impressa e gravada. Em seguida, tornada pública pelo lançamento do disco. E, finalmente, de reconhecimento geral, ao ganhar a boca do povo no ainda acanhado carnaval carioca. Portanto, proponho esta polêmica. Talvez um dilema. Mas uma verdade: o samba pioneiro deve ser datado de 1917, ano em que se fez impresso, gravado e conhecido. Até porque dezenas de composições da MPB, antes e depois de "Pelo Telephone", ostentam o ano de batismo apenas ao se tornarem discos. Ou, ao menos, quando suas partituras são impressas e distribuídas. Para consolidar esta data de 1917, a viúva de Donga, Vó Maria (falecida aos 103 anos), protagonizou os 90 anos do "Pelo Telephone", em março de 2007, no Instituto da Urca, festa testemunhada por sambistas relevantes como Luis Carlos da Vila, Martinho da Vila, entre outros. Portanto, acordem todos! Especialmente as Escolas de Samba e a Prefeitura, que deverão celebrar Donga ano que vem. Menos mal...".   BIBLIOGRAFIA CRÍTICA CONSULTADA:   ALBIN, Ricardo Cravo. Dicionário Houaiss Ilustrado Música Popular Brasileira - Criação e Supervisão Geral Ricardo Cravo Albin. Rio de Janeiro: Instituto Antônio Houaiss, Instituto Cultural Cravo Albin e Editora Paracatu, 2006. AMARAL, Euclides. Alguns Aspectos da MPB. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2008. 2ª ed. Esteio Editora, 2010. 3ª ed. EAS Editora, 2014.

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