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Pixinguinha

Alfredo da Rocha Vianna
23/4/1897 Rio de Janeiro, RJ
17/2/1973 Rio de Janeiro, RJ

Crítica

A biografia de Pixinguinha começa assim em meu livro “Panorama da música popular brasileira” (São Paulo, Martins, 1964): “Se você tem 15 volumes para falar de toda a música popular brasileira, fique certo de que é pouco; mas, se dispõe apenas do espaço de uma palavra, nem tudo está perdido: escreva depressa, Pixinguinha.” Essa frase certamente chegou ao conhecimento do mestre. Pouco depois do livro publicado, ele me telefonou, reclamando que eu não lhe enviara o “Panorama”. Prometi-lhe que faria a remessa com urgência. Promessa feita, promessa prontamente cumprida. Em encontros posteriores, ele nunca se referiu ao recebimento do livro, mas, pelo meu trabalho, expressou a gratidão de outras maneiras mais sutis. Por exemplo: a dedicatória, em letras grandes, ao elepê “Pixinguinha 70”, escrita a 1º de outubro de 1968: “Ary, grande amizade. Pixinguinha.” Convivi com o autor de “Ingênuo” em dias de muita felicidade, tendo almoçado diversas vezes em sua casa da Rua Belarmino Barreto – hoje Rua Pixinguinha – degustando, na sobremesa, o pudim de ovos, confeccionado pela sua esposa, d. Béti. Dias gloriosos de que participei, partilhando da alegria do casal, bem como outros convivas ilustres: Caninha, Alfredinho Flautim, Donga, João da Baiana etc. Anos depois, e dias antes de sua morte, reencontrei Pixinguinha – e pela última vez – em casa de Luperce Miranda, em um animado aniversário deste, festejado com muita cachaça e muito choro, naturalmente. No final da festa, fui levar Pixinguinha a casa, não mais a alegre e espaçosa da rua que levava seu nome, mas um minúsculo e lúgubre apartamento do Conjunto de Músicos, em Inhaúma. Pensei: como poderia viver solitário e com tanta pobreza aquele que eu considero o maior compositor popular brasileiro de todos os tempos, autor de sucessos absolutos como “Carinhoso”, “ Lamento”, “Ingênuo”, músicas que estufaram de dinheiro grosso tantos outros bolsos? Voltei sozinho, quase em lágrimas, para casa. Então me recordei de uma conversa que tivera, dentro de um ônibus, com Pixinguinha, em dias melhores, e da explicação que ele me ofereceu quando manifestei minha estranheza que não ficara rico com a música. “É que o editor brasileiro, além de furtá-lo aqui” – disse-me — trocava com o estrangeiro “o direito de assaltá-lo também lá fora.” Dólares e francos dos direitos de “Carinhoso”, por exemplo, ficavam no exterior e, em compensação, não eram para lá remetidos os de fox e valsas estrangeiros que eram executados aqui. Uma mão suja girava na outra, nessa lavagem de direitos autorais – e daí que Pixinguinha tenha morrido paupérrimo. E assim, a morte de Pixinguinha foi bem mais triste do que a de Ivan llitch, personagem de Tolstoi. Se aqui no Brasil foi assim tratado nosso maior compositor popular, que podem esperar os demais, mesmo aqueles que também inundaram de tanta luz e fulgor os caminhos de nossa música popular?



Ary Vasconcelos

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