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Nora Ney

Iracema de Souza Ferreira
20/3/1922 Rio de Janeiro, RJ
28/10/2003 Rio de Janeiro, RJ

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Crítica

Quais foram os casais mais famosos e interessantes da cena artística brasileira? Se você apostar em Vicente Celestino e Gilda de Abreu, ou em Tarcísio Meira e Glória Menezes, você está certa.

Mas, se você apostar em Jorge Goulart e Nora Ney, você acerta duplamente. Isto é, Jorge e Nora têm uma originalidade que os faz diferentes dos demais.

Ele tem a coragem – e até a dignidade – de afirmar que agora completam 50 anos de coabitação, e não de casamento de papel passado – apesar de terem-se casado há uns poucos anos, só para fins burocráticos.

Essa deliciosa transgressão social, digamos mesmo, essa fé no amor mútuo independente de protocolo, tornam Nora Ney e Jorge Goulart um casal único no nosso conturbado – e muito volúvel – meio artístico.

Conheceram-se em 1950, ambos apresentados por Carmélia Alves, até hoje a melhor amiga do casal.

Certa vez apresentei-os a um amigo comum em minha casa, como exemplo de um raro casamento que deu certo por tanto tempo. Ao que Nora retrucou com terna simplicidade: “Não, eu não sou esposa, eu sou companheira. Nós não somos casados, apenas vivemos juntos.”

Nora começou a despontar nos frenéticos programas de auditório da Nacional e nas penumbras das boates de Copacabana, tempos da fossa e do samba-canção.

Nora Ney – cujo nome artístico fora inspirado em Doris Day e que começou cantando em inglês – pisava na MPB com o pé direito ao lançar o jornalista Antônio Maria. O megassucesso “Ninguém me ama” transformaria Nora de imediato na rainha sensual do samba-canção dor-de-cotovelo. A voz grave, quase de travesseiro, foi dormir com a voz potente do tenor Jorge Goulart exatamente em 1951. Ela, divorciada, ele também. Juntaram os trapinhos e as almas também para sempre, numa das mais comovedoras uniões do Brasil. União, aliás, em todos os sentidos. Inclusive, no ideário político. Ambos foram os primeiros cantores do Brasil a ousar fazer excursões pela antiga Cortina de Ferro. Acusado de comunista em 1964, o casal esteve na primeiríssima lista de cassados da Rádio Nacional.

Lembro-me de que, quando escrevi e dirigi para Nora e Jorge o show “Casal 20”, 1976, na antiga Sala Sidney Miller da Funarte, fiz questão de colocar no roteiro um testemunho deles sobre a fé no socialismo, ou num mundo mais digno e justo. O público vinha abaixo e, invariavelmente, ambos terminavam o espetáculo em prantos.

Esses dois grandes artistas do Brasil são excepcionais figuras humanas, cuja dimensão nos faz acreditar que ainda há gente que vale a pena neste país.

A Som Livre acaba de reeditar dois elepês gravados em 1976 por Nora Ney. O primeiro, “Jubileu de ouro”, ela o divide com Jorge Goulart, que honra suas tradições de sambista ao interpretar jóias como “Divina dama” (Cartola) e “Os cinco bailes da história” (Silas e Dona Ivone Lara). O segundo, “Tire o sorriso do caminho”, recria algumas canções imortais por Nora como “Preconceito” e “Ninguém me ama” (ambas de Antônio Maria) ou o visceral “Bar da noite”, pepita de Bidu Reis e Haroldo Barbosa.

Tanto Goulart quanto Nora estavam em plena forma quando gravaram estes dois discos em 1976. Agora, um quarto de século depois, os discos espelham um precioso legado: a rara sedução das vozes de ambos.



Ricardo Cravo Albin

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