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Nelson Sargento

Nelson Mattos
25/7/1924 Rio de Janeiro, RJ

Crítica

Conheço Nelson Sargento desde os tempos dos grupos Os Cinco Crioulos e A Voz do Morro, em que ele se perfilava ao lado dos bambas Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, Elton Medeiros e Paulinho da Viola, o mais jovem do grupo (tinha, na época, anos 60, menos de 20 anos) e por quem Nelson sempre guardou uma afeição muito especial. Afeição que ele acabou por reiterar, para minha surpresa, a uma provocação que lhe fiz: “Mas você tem uma divindade da MPB que está na frente dos outros em seu coração e que é o Cartola, não é?” “Digo e repito sempre: Cartola parece que nem existiu. Foi um sonho bom na vida da gente, mas orgulho, mesmo, eu tenho é de ter visto nascer o Paulinho, para a vida e para a música.”

A palavra “orgulho” é muito adequada para definir o sentimento que todos nós, amigos do Sargento, a ele devotamos. E por todas as razões. Pelas já alinhadas neste texto e por uma dúzia de outras. Pouca gente sabe, por exemplo, que nosso General do Samba é também pintor. Tal como Heitor dos Prazeres, ele elabora uma pintura “naïf” que sempre me enterneceu: são, em geral, paisagens das favelas, cujos primeiros planos estão ocupados por casinhas coloridas. O efeito final desses quadros faz dele um pintor muito interessante, eu diria mesmo tão original quanto o citado Heitor ou o grande Poteiro de Goiás.

Mas não bastaria a um carioca como Nelson fazer sambas, pintar quadros e tocar violão? Nelson, contudo, tem aquele “algo mais” que qualifica o verdadeiro espírito carioca de proceder. Ele, acreditem ou não, é capaz de se indignar na defesa dos valores permanentes para o Rio. Como Tom Jobim, o nosso “general” ergue armas contra a decadência dos bons hábitos cariocas.

“Você notou como as pessoas andam mal-educadas? Você está sentindo como aquele espírito tão carioca de gentileza anda escapando pelo esgoto?” Aflito, quase indignado, ele me questiona sobre esses problemas a mim tão caros. Juntos, praguejamos. Juntos, nos exaltamos na defesa de um Rio mais amável.

Subitamente, Nelson corta a conversa ao me ver mais excitado do que deveria, agarra o violão e canta, como a pontuar toda essa resistência de que ele sempre foi capaz: samba agoniza, mas não morre.



Ricardo Cravo Albin

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