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Nação Zumbi



Crítica

Em algum dia perdido do verão de 2003, em meio às brisas sopradas pelo Capibaribe, no bairro do Recife, eu travava um papo musical com o artista multimídia Hélder Aragão - a verdadeira alcunha do Dj Dolores. Durante a conversa, ele defendia a tese de que a música era uma arte difícil de ser conceitual: “basta o cara ter um bom groove que ele derruba qualquer argumento”. No calor da hora e para evitar maiores discussões, concordei. Dias depois, lendo o livro “Sobre Ética e Psicanálise”, de Maria Rita Kehl, encontrei uma passagem, na qual ela relata que a criação de sentido para a existência é uma tarefa coletiva, uma tarefa da cultura, “da qual cada sujeito participa com seu grão de invenção”, e não um ato individual. Imediatamente, voltei a pensar na prosa com Dolores. Como seria possível considerar a força do som, o balanço, o groove da Nação Zumbi desvinculado de toda a efervescência cultural que foi a “cena Mangue”? Para mim, isto parecia impossível. Lembrei do texto do Hermano Vianna “Eu só quero fazer parte dessa Nação”, onde ele coloca que “a Nação Zumbi deve ser pensada como um coletivo de idéias artísticas, guerrilhas culturais e intervenções políticas (entre muitas outras atividades), do qual a banda musical é apenas sua (inter)face mais visível e aparentemente amigável. O Mangue está na origem de tudo. O Mangue como gerador de antropofagia cultural, que deu nova potência e direção para a visão de mundo dos agrupamentos mais combativos da juventude brasileira (e - por que não? - da cultura brasileira) dos anos 90.” O Mangue estava, de fato, na origem de tudo. Para a capital pernambucana, que até o início daquela década se encontrava enterrada em um marasmo cultural de extrema apatia, o Mangue foi um grito, a redenção de uma comunidade com mais de 400 anos de história e que, só no século XX, havia gerado nomes da dimensão de Manuel Bandeira, Gilberto Freyre e João Cabral de Melo Neto, como bem colocou Fred 04 no segundo manifesto do movimento. Para além destes nomes, o Mangue foi mais, pois deu voz a quem nunca tinha sequer tido a chance de se pronunciar: a recente e desesperançada massa urbana de um nordeste já calejado dos mandos (ou desmandos?) da tradição autoritária de origem agrária. “De monocultura basta a da cana-de-açúcar!”, era a metáfora grafitada pelos muros da Manguetown, enquanto nela explodia a diversidade sonora das inúmeras bandas que lá surgiam. Sei que é tarefa um tanto inusitada falar da Nação sem sequer fazer referência a potência de sua música. Sei que é difícil desprezar todo processo alquímico desencadeado por Chico Science e seus companheiros ao fundir hip-hop com maracatu, fazendo valer os preceitos de Afrika Bambaataa e seu "looking for a perfect beat". No entanto, longe de ignorar seu som, creio que a maior lição do grupo é a de fazer lembrar que “o homem coletivo sente a necessidade de lutar”, de fazer ecoar o forte e velho grito herdado de Palmares. Diante de tais considerações, o que mais posso dizer da música da Nação Zumbi? Apenas que, de Zumbi aos panteras negras, todos aqueles que se empenharam na tarefa de representar suas comunidades buscando um mundo menos opressor e mais democrático, além de terem o sangue derramado, “eu tenho certeza eles também cantaram um dia”. E bem. Ou vai dizer que desafinaram?



Roberto Azoubel

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