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Mário Reis

Mário da Silveira Meirelles Reis
31/12/1907 Rio de Janeiro, RJ
5/10/1981 Rio de Janeiro, RJ

Dados Artísticos

Lançou seu primeiro disco em 1928 pela Odeon registrando o samba "Que vale a nota sem o carinho da mulher" e o romance "Carinhos de vovô", ambas composições de Sinhô, acompanhado pelos violões do próprio compositor e de Donga. Seu estilo coloquial de cantar contrastava com o de cantores como Vicente Celestino, Carlos Galhardo e Francisco Alves. A gravação de discos saía então da era mecânica para entrar na era do sistema elétrico. Os cantores passavam a fazer uso do microfone ao invés do antigo autofone. O novo processo favoreceu bastante seu estilo, mais simples e coloquial. No entanto, era também um cantor de voz forte e se adequava perfeitamente à maneira mais operística do canto de Francisco Alves, com quem formou dupla e realizou cerca de 24 gravações, no início da década de 1930. Segundo os pesquisadores Jairo Severiano e Zuza Homem de Melo, ao romper com a tradição do bel canto italiano, que imperava até então, ele inaugurou um novo período na história do canto popular no Brasil, que passou a ser mais natural e espontâneo. Intérprete ideal para os sambas de Sinhô, gravou em 1929 "Gosto que me enrosco", acompanhado por dois violões um dos quais provavelmente executado pelo próprio Sinhô. Este samba, cuja autoria foi reivindicada por Heitor dos Prazeres, teve uma versão inicial com letra de Bastos Tigre, intitulada "Cassino Maxixe", lançada na comédia "Sorte grande", que inaugurou o Teatro Cassino, em 1926. Tempos depois, Sinhô compôs novos versos, dando ao samba o nome "Gosto que me enrosco". Ainda no mesmo ano, gravou o samba "Jura", sem dúvida, o maior sucesso do compositor Sinhô. Lançado por Aracy Cortes na revista "Microlândia", reprisado em "Miss Brasil", "Jura" foi gravado simultaneamente por ele e Aracy Cortes, em fins de 1928, tornando-se uma das músicas mais cantadas no Brasil nos anos seguintes. Ainda em 1929, lançou o samba "Vou à Penha", primeira composição gravada de Ary Barroso, seu colega de faculdade e à época ainda compositor desconhecido. Em agosto, estreou na Rádio Sociedade, interpretando o samba "Vamos deixar de intimidade", também de Ary Barroso.

Em 1930, formou famosa dupla com o cantor Francisco Alves, com o qual gravou um total de 12 discos. No primeiro registro interpretaram os sambas "Deixa essa mulher chorar", de Brancura e "Quá-quá-quá", de Lauro dos Santos. Com o êxito da dupla surgiram várias outras duplas de cantores, como a formada por Jonjoca e Castro Barbosa. Em 1931, gravou com Francisco Alves o samba "Se você jurar", de Ismael Silva e Nilton Bastos, que também foi assinado por Francisco Alves. Neste mesmo ano, em visita a São Paulo, gravou na Columbia os sambas "Não me perguntes", de Joubert de Carvalho e "Quem ama não esquece", esta última composta por ele próprio. Como mantinha contrato de exclusividade com a Odeon usou o pseudônimo C. Mendonça. Ainda em 1931, excursionou à Argentina ao lado de Francisco Alves, Carmen Miranda, Luperce Miranda, Tute e os dançarinos Nestor Figueiredo e Célia Zenatti. Em 1932, gravou ainda na Odeon em dueto com Lamartine Babo e acompanhamento da Orquestra Copacabana o samba "Só dando com uma pedra nela", de Lamartine Babo. Gravou também no mesmo ano os sambas "Mentir", de Noel Rosa e "Prazer em conhece-lo", de Noel Rosa e Custódio Mesquita. Em 1933, gravou os sambas "Quando o samba acabou" e "Capricho de rapaz solteiro", de Noel Rosa. No mesmo ano, gravou dois discos na Columbia interpretando quatro sambas de Noel Rosa: "Vejo amanhecer" e "Filosofia", com acompanhamento de Pixinguinha e sua orquestra e "Meu barracão" e "Esquina da vida", este, parceria de Noel Rosa com Francisco Mattoso. Ainda no mesmo ano, gravou na Victor com Lamartine Babo e o Grupo da Guarda Velha as marchas "Aí!...Hein!..." e "Boa bola", de Lamartine Babo e Paulo Valença e "Linda morena", de Lamartine Babo. Ainda em 1933, lançou pela Victor com Carmen Miranda e os Diabos do Céu a marcha "Chegou a hora da fogueira" e o samba "Tarde na serra", ambas de Lamartine Babo. Com Almirante, Carmen Miranda, Lamartine Babo e o Grupo do Canhoto gravou o cateretê "As cinco estações do ano", de Lamartine Babo. Também no mesmo ano, gravou um clássico do samba: "Agora é cinza", de Alcebíades Barcellos e Armando Marçal.

Em 1934, mais um sucesso com "Uma andorinha não faz verão", marcha carnavalesca de João de Barro e Lamartine Babo. Gravada originalmente em 1931 por Alvinho, tornou-se sucesso na sua voz. Ainda em 1934, gravou com Carmen Miranda o samba "Me respeite...ouviu?", de Walfrido Silva e a marcha "Isto é lá com Santo Antônio", de Lamartine Babo com acompanhamento dos Diabos do Céu e o samba "Alô, alô", de André Filho, com acompanhamento do Grupo do Canhoto.

Em 1935, participou dos filmes musicais "Alô, alô Brasil" e "Estudantes", ambos de Wallace Downey. No primeiro, interpretou a marcha "Rasguei a minha fantasia", de Lamartine Babo e, no segundo, a marcha "Linda Mimi", de João de Barro, o maior sucesso do filme. No mesmo ano, fez sucesso no carnaval com a marcha "Eva querida", de Luiz Vassallo com acompanhamento dos Diabos do Céu. Em 1936, atuou no filme "Alô, alô, carnaval", de Ademar Gonzaga no qual interpretou as marchas "Cadê Mimi?", de João de Barro e Alberto Ribeiro; "Teatro da vida", de A . Vítor e "Fra Diávolo no carnaval", de Carlos Martinez e Alberto Ribeiro. No mesmo ano, lançou pela Odeon os sambas "Este meio não serve", de Donga e Noel Rosa e "Tira...tira...", de Donga e Alberto Simões com acompanhamentos de Simon Boutman e Orquestra Odeon.

Avesso a badalações, evitava ao máximo entrevistas, fotografias e aparições públicas e foi se afastando no meio artístico. Em 1939, após ausência das gravações por um período de três anos retornou ao disco com "Joujoux e balangandãs", marcha de Lamartine Babo, grande sucesso do espetáculo beneficente de mesmo nome realizado no Rio de Janeiro no mesmo ano, patrocinado pela então Primeira-Dama, Sra. Darcy Vargas e com direção musical de Radamés Gnattali. A composição mostra um diálogo musical entre um brasileiro e uma francesa, vividos no palco e no disco por ele e Mariah (pseudônimo da socialite Maria Clara Correia de Araújo). A gravação recebeu orquestração de Pixinguinha no lugar da realizada por Radamés para o espetáculo, pois esta era extensa demais para o disco. No mesmo ano, lançou o samba "Voltei a cantar", de Lamartine Babo com acompanhamento de Kolman e a orquestra do Cassino da Urca; o samba "Deixa essa mulher sofrer", de Ary Barroso com acompanhamento de Fon-Fon e sua orquestra e a marcha "Iaiá boneca", de Ary Barroso com acompanhamento de Kolman e orquestra do Cassino da Urca. Em 1940, gravou na Columbia a marcha "Virgula", de Alberto Ribeiro e Frazão e o samba "Você me maltrata", de Xavier de Souza, Marques Júnior e Roberto Roberti. Após esse disco, afastou-se da vida artística outra vez.

Em 1951, retornou ao microfone gravando quatro discos pela Continental. Nos três primeiros, relaçou antigos sucessos de Sinhô como os sambas "Jura", "Fala meu louro" e "Ora vejam só", com acompanhamento de Vero, pseudônimo do maestro Radamés Gnattali, que fez os arranjos, e sua orquestra. O outro disco foi lançado no ano seguinte com a marcha "Flor tropical", de Ary Barroso e o samba "Saudade do samba", de Fernando Lôbo com acompanhamentos de Vero e sua orquestra.

Em 1960, Aloysio de Oliveira o convidou a gravar pela Odeon o LP "Mário Reis canta suas criações em hi-fi". Neste, que foi seu primeiro LP, e que teve aranjos de Lindolfo Gaya, gravou uma parceria de Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, "O grande amor", que seria recriada poucos anos depois por João Gilberto no disco Getz/Gilberto. Gravou ainda o samba-canção "Isso eu não faço não", com música e letra de Antônio Carlos Jobim.

Em 1965, para os festejos do 4º centenário da cidade do Rio de Janeiro, o mesmo Aloysio de Oliveira produziu para a Elenco, também com arranjos do maestro Lindolfo Gaya, o LP "Mário Reis: Ao Meu Rio". Nele, o cantor recriou antigos sucessos como "Quando o samba acabou", de Noel Rosa, "Jura", de Sinhô e "Pelo Telefone", de Donga e Mauro de Almeida. Em 1967, a gravadora Elenco lançou o LP "O melhor do samba" no qual aparece como intérprete ao lado de Aracy de Almeida, Cyro Monteiro e Billy Blanco. No mesmo ano, a RCA Victor lançou o LP "Mário Reis", reunindo 12 faixas anteriormente lançadas em 78 rpm, incluindo as gravações de "Chegou a hora da fogueira", de Lamartine Babo, "Alô-Alô", de André Filho, em duo com Carmen Miranda e "Linda Morena" e "A tua vida é um segredo", em duo com o compositor Lamartine Babo. Em 1971, a Elenco relançou o LP "Ao Meu Rio" com o título de "Os grandes sucessos de Mário Reis". No mesmo ano, a Odeon lançou o LP "Mário Reis", onde o intérprete recriou antigos sucessos de seu repertório e apresentou composições mais recentes como "A Banda", de Chico Buarque. Além desta marcha, a pedido dele, Chico Buarque entrava no disco com uma outra composição, o samba inédito "Bolsa de amores", mas que foi censurado. O samba permanece ainda pouco conhecido e a letra remete a antigos sambas de Noel Rosa e Sinhô ou, como prefere o pesquisador e biógrafo Luís Antonio Giron, lembra sambas da "Turma do Estácio " que se referiam ao ar desdenhoso das mulheres. A comparação entre a "moça fria e ordinária" com o mercado de ações na época em que se vivia o "Milagre Brasileiro" fez com que o samba fosse taxado de ofensivo à imagem da mulher brasileira. A gravação de "Bolsa de Amores" só seria lançada mais de dez anos após a morte do cantor em 1993 no CD "Mário Reis canta suas criações em hi-fi", que contém os LPs gravados em 1960 e 1971. Incomodado com a censura ao samba o cantor insistiu para que a faixa fosse mantida no disco, ainda que sem o som da gravação, numa clara atitude de protesto. O disco foi lançado num show no Golden Room do Copacabana Palace em três apresentações com casa lotada, tendo sido aplaudido de pé por mais de dez minutos. Foi uma de suas últimas aparições públicas. Sendo essencialmente cantor, chegou também a assinar raramente algumas das composições que gravou, como no caso de "Quem ama não esquece". Luis Antonio Giron afirma que ele também compôs com o pseudônimo de "Zé Carioca" com o qual assinou o samba "Nosso Futuro", por ele mesmo gravado em 1932.

Em 1995, o cineasta Júlio Bressane levou às telas o filme "O Mandarim" no qual o ator Fernando Eiras vive o papel de Mário Reis em inusitados encontros com Noel Rosa, vivido por Chico Buarque, Sinhô, por Gilberto Gil, Tom Jobim, por Edu Lobo e Caetano Veloso, vivido pelo próprio. Em 1993, a gravadora Revivendo lançou o CD "Duplas de Bambas", onde aparecem sucessos de Mário Reis/Francisco Alves e Jonjoca/Castro Barbosa. Em 2000, a coleção "Raízes do Samba", da EMI, lançou o CD "Mário Reis", com 20 gravações ao longo de toda a carreira do cantor. Desde "Jura", de Sinhô, gravada em 1928, até "Nem é bom falar", de Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves, gravada em 1971. Algumas antológicas gravações da dupla Mário Reis/ Francisco Alves também aparecem nesse CD, como "Anda, vem cá", composição de Bucy Moreira, neto da lendária Tia Ciata.

No ano de 2001, o jornalista Luís Antônio Giron lançou uma bem documentada biografia do cantor - "Mário Reis, o fino do samba" - pela Editora 34. No livro, o autor apresenta depoimentos inéditos sobre o intérprete e expõe sua visão da importância de Mário Reis para a formação de um jeito brasileiro de cantar. Ainda em 2001, a Revivendo lançou em CD a coletânea "Jura", reunindo 21 gravações do cantor de diversos períodos de sua carreira, desde a faixa título, passando por "Agora é cinza", de Bide e Marçal, "Filosofia", de Noel Rosa e André Filho, "Me respeite... Ouviu?, de Walfrido Silva, esta gravada em duo com Carmen Miranda e também "Isso eu não faço, não", de Antônio Carlos Jobim e "A Banda", de Chico Buarque".

Em 2002, o selo Revivendo lançou o CD "Ases do samba: Mário Reis e Francisco Alves", com 25 gravações da dupla. Em 2004, foi lançada pela BMG uma caixa com três CDs reunindo material gravado pelo cantor para a RCA Victor. Com Produção de Carlos Sions os CDs ressaltam o pioneirismo do cantor que iniciou uma nova maneira de cantar na música popular brasileira. O CD triplo levou o título de "Mário Reis - Um cantor moderno" e estão presentes entre outras, obras como "A tua vida é um segredo", "Verbo amar", "Parei contigo", "Tarde na serra", "Eu queria um retratinho teu" e "O sol nasceu para todos", todas de de Lamartine Babo, sendo as duas últimas em parceria com Noel Rosa, "É de amargar", de Capiba, "Você faz assim comigo", dos Irmãos Valença, "Não sei que mal eu fiz" e "Vou ver se posso", de Heitor dos Prazeres, "Agora é cinza", "Meu sofrimento" e "Nosso romance", da dupla Bide e Marçal, "Esse samba foi feito pra você", de Assis Valente, "Fui louco", de Noel Rosa e Bide, "Doutor em samba", de Custódio Mesquita, e "Estás no meu caderno", de Wilson Batista, Benedito Lacerda e Oswaldo Silva. Também fazem parte dos CDs gravações feitas em dueto com outros cantores da época como "Boa bola", "Aí, hem!" e "Linda morena", as três de Lamartine Babo e interpretadas com o próprio Lamartine Babo, "Chegou a hora da fogueira" e "Isto é lá com Santo Antônio", marchas juninas de Lamartine Babo cantadas em dueto com Carmen Miranda, cantora com a qual aparece ainda cantando a marcha "Alô, alô", de André Filho, além da sátira "As cinco estações do ano", de Lamartine Babo cantada juntamente com Almirante, Lamartine Babo e Carmen Miranda. No primeiro semestre de 2007, em comemoração ao centenário de seu nascimento foi criado pelo Instituto Cultural Cravo Albin o "Comitê Mário Reis" visando organizar eventos comemorativos contando com as participações de nomes como Alicinha Silveira, Ângela Catão e Cláudia Foialho, entre outras personalidades. No mesmo ano, foi homenageado pelo cantor Carlos Navas com o CD "Quando o samba acabou - Dedicado a Mário Reis" no qual o cantor reinterpretou dez canções gravadas anteriormente por aquele que foi chamado de "O mais carioca dos cantores": "Quando o samba acabou", de Noel Rosa, Se você jurar", de Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves, "Jura", de Sinhô, "Filosofia", de Noel Rosa e André Filho, "Dorinha meu amor", de José Francisco de Freitas, "Sabiá", de Sinhô, "Meu barracão", de Noel Rosa, "Cansei", de Sinhô, "Fui louco", de Noel Rosa e Bide, e "Joujoux e balangandans", de Lamartine Babo, gravada em dueto por Carlos Navas e Tetê Espíndola. Ainda por ocasião das comemorações do centenário de seu nascimento, foi homenageado pelo jornalista João Máximo, no dia 31 de dezembro, data de seu aniversário natalício com uma crônica na qual destacou sua importância como cantor e divulgador do samba do do pessoal do Estácio: "Mário Reis foi fundamental nisso. Estudiosos costumam comparar João Gilberto a ele, enfatizando o fato de ambos terem a voz pequena, mas a aproximação pode ser maior se for lembrado que, a partir de Reis (como a partir de João), muitos não-cantores passaram a usar a própria voz para interpretar o que compunham".

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