Busca:

Mário Lago

Mário Lago
26/11/1911 Rio de Janeiro, RJ
30/5/2002 Rio de Janeiro, RJ

Crítica

Tempos atrás enfrentei uma dessas chuvinhas persistentes que tiram toda vontade de sair de casa só para ir abraçar Mário Lago, que recebia o troféu Eletrobrás no Teatro Rival. Era uma manhã cinza, em que o Rio parecia naufragar em tristezas e ângulos escuros, deixando os cariocas órfãos de bom-humor e de vontade de cantar.

Pois foi chegar ao Teatro para tudo mudar. Lá estava Mário Lago esgrimindo sua imbatível verve e cantando suas músicas, através da voz do cantor Chamon. E ainda por cima entrevistado por Villas-Boas Corrêa, cujo molho é temperado com cultura, paixão e delicada ironia.

Mário, na flor dos 87 anos, me recebeu no camarim mesmo antes de o show começar. Ali estava o velho amigo, cercado pelos filhos, por repórteres e pelo Villas-Boas.

“ – Meu bom Lago, quero escrever umas notas sobre você. Quais são as novas”?

“ – Meu caro, um velho como eu só tem de novo os achaques. Hoje, um ataca aqui, amanhã, outro acolá. Quanto ao resto – eu, que não mudo nunca de opinião – você sabe melhor do que eu. Portanto, nenhuma novidade”.

Mário estava coberto de razão, ao menos no que se refere as suas opiniões. Porque no meio artístico ninguém (a não ser Oscar Niemeyer, é claro) exercitou um padrão de coerência tão digno quanto ele. Ou seja, foi comunista desde 1932. E até hoje ainda é. Seguidor de Luiz Carlos Prestes desde então, contribuiria para a subsistência do velho líder até sua morte na década de 90 – doações que jamais ele tornou públicas.

Mas não é do Mario ativista político que quero falar aqui, apesar de ter sido – como era mesmo de se esperar – o primeiro radialista cassado em 1964, na antiga Rádio Nacional, que na época significava pouco mais que a Rede Globo de hoje.

O fato é que Mário Lago deixou marcas em todas as áreas a que se dedicou. E foram muitas e tantas que ninguém entendia como um jovem advogado de futuro poderia dedicar-se a “bobaginhas” como escrever para rádio e teatro – a primeira peça foi em 1933, “Flores à cunha”, uma sátira ao político gaúcho Flores da Cunha. Ou produzir versos para a canção popular – a primeira “Menina, eu sei duma coisa” (1936) com Custódio Mesquita, cantada por Mário Reis. Ou ainda ser compositor de música como “Devolve” e “Será” – valsas com música e letras suas, na voz de Carlos Galhardo.

Pouco? Não para Mário Lago, que ainda escrevia e interpretava muitíssimo para o rádio. E sempre foi ator de teatro, cinema e televisão, encarnando personagens marcantes.

Eu sou fã de carteirinha do Mário. E costumo fazer um teste com amigos para saber qual Mário Lago é melhor, se o da parceria com Custódio (“Enquanto houver saudade”, “Nada além”), ou com Roberto Martins (“Dá-me tuas mãos”), ou com Ataulfo Alves (“Amélia”, “Atire a primeira pedra”) ou sozinho (“Fracasso, “Devolve” ou “Será”). E, acreditem, jamais chegamos a uma conclusão unânime. Prova, já se vê, do talento do poeta e compositor. Se querem saber de minha opinião pessoal, lá vai: parceria Mário e Custódio Mesquita e não abro. Ou será que existe alguém neste país que não se babe com os primeiros acordes dessa sedução imbatível que é “Nada além”?

Perguntei, tempos atrás, pelo telefone, ao Mário quantas músicas novas há no baú.

“ – É meu nego, tá tudo no baú mesmo, você sabe, eu gosto é de ser gigolô de música. Isto é, eu faço e quero que ela viaje e me traga dinheiro. Agora, não. Autores, como eu, passamos de gigolô para ser mulher de malandro, já que temos que gastar rios de dinheiro para trabalhá-la e para isso, e para aquilo”.

Pensei e pensei no que ouvi do Mário Lago para concluir com os meus botões: “ – O Lago está certo, mais uma vez. Como sempre esteve.







Ricardo Cravo Albin

Mais visitados
da semana

1 Hermeto Pascoal
2 Caetano Veloso
3 Dorival Caymmi
4 Luiz Gonzaga
5 Tom Jobim
6 Festivais de Música Popular
7 Ângela Maria
8 Irmãs Galvão
9 Chitãozinho e Xororó
10 Beth Carvalho