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Marinês

Inês Caetano de Oliveira Farias
16/11/1935 São Vicente Férrer, PE
14/5/2007 Recife, PE

Crítica

Marinês merece – e sempre mereceu – todas as homenagens que nossos ouvidos, às vezes por demais urbanizados, se negam a prestar ao nordeste e a seu povo. Ainda sobre essa coisa abominável, que é o preconceito contra o simples, o puro, o visceral, a raiz, assaltou-me inda agorinha uma conversa lapidar com o sábio Luiz da Câmara Cascudo. Dele ouvi, numa das últimas visitas que lhe fiz em Natal, mais ou menos o seguinte:

“ – Mas, mestre, e esses críticos que ridicularizam a música de raiz, dizendo que raiz é mandioca crua, que só dá dor de barriga, se comida?”

“ – Não se avexe, não, meu filho. Esses pobres diabos não sabem nada de nada, ao propor frases idiotas para maus propósitos. E de mais a mais, comer macaxeira só faz bem e dá sustança, tanto quanto a música de raiz. Não esqueça que é ela que sustenta e molda o caráter nacional. Negá-la é negarem-se os pilotis do Brasil, para ficar só com o forro. Muitas vezes de material tão ruim, que qualquer ventinho mais afoito leva lá pros cafundós.”

Na semana seguinte, já no Rio, visitei outro brasileiro monumental, Luiz Gonzaga. Contei-lhe da conversa com Cascudo, que de imediato o comoveu. E enquanto Gonzaga desembaçava os óculos suados pela emoção incontida, fez-me um pedido surpreendente:

“ – Pois o senhor saiba que eu preciso de seu apoio para uma macaxeira de lei, pura raiz, que se chama Marinês, a quem estou convidando para uma turnê comigo pelo país todo.”

Os olhos, ou melhor, um dos olhos sadios do grande artista, o outro era quase cego, brilhou com intensidade enquanto discorria sobre Marinês. Pedi para ouvir alguns de seus LPs e lá fiquei todo um belo final de tarde na Ilha do Governador – Gonzaga morava num casarão perto da praia – apenas a ouvir Marinês e a testemunhar o encantamento do Rei do Baião pela futura Rainha do Forró.

Comecei a amar Marinês. Uma voz encorpada e cálida, uma presença exuberante e um repertório que só inclui as vísceras do nordeste sempre fizeram dela uma figura muito especial e vigorosa dentro da MPB.

Marines, na verdade, andou sumida um tempão pela falta de respeito aos valores permanentes, que prefere incensar bobagens passageiras como as garotas que cantam (cantam?) essa “pornô-music”, a “bunda-music” chinfrim e desqualificada.

Por isso tudo, saúdo daqui esses anos todos de permanência, respaldados em dignidade e correção. Marinês, além do que, é também rara porque quase solitária no seu matriarcado como cantora. O que quer dizer isso? Quer dizer duas coisas: primeiro, que Marinês, mesmo esquecida pelo volúvel eixo Rio - São Paulo, jamais deixou de fazer sucesso no nordeste inteiro, como única mulher envergando as ferramentas de gigantes do porte de Gonzaga e Jackson do Pandeiro.

E, finalmente, porque Marinês nunca cantou outra música que não fosse o forró, o xote, o baião, o coco. Ou seja, toda a visceralidade da força do nordeste. Sem concessão.





Ricardo Cravo Albin

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