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Lupicínio Rodrigues

Lupicínio Rodrigues
16/9/1914 Porto Alegre, RS
27/8/1974 Porto Alegre, RS

Crítica

Vinícius de Moraes emitiu uma verdade cristalina sobre os poetas e o ato poético: “todo poeta só é grande se sofrer” (versos de “Eu não Existo sem Você”, 1957). Nesse contexto, Lupicínio Rodrigues terá sido o maior dentre todos os poetas do cancioneiro. Porque ninguém exibiu – com tal opulência – os sofrimentos e as dores-de-cotovelo como o gaúcho baixinho, de voz mansa e olhos indecifráveis (uma estranha mistura de mel, sensualidade e carência afetiva).

Exageros à parte, se o bom Lupi não for nosso maior poeta, com certeza será o que melhor destilou os amores desfeitos e as dores-de-cotovelo na história do samba-canção e da boêmia neste país.

Um belo livro escrito por Rosa Maria Dias, “Lupicínio e a dor-de-cotovelo”, analisa a metalinguagem da fossa, do cabaré e das paixões desenfreadas contidas na obra do compositor. Quase todas as músicas do Lupi estão lá dissecadas, analisadas, investigadas. Logo na introdução do livreto, na verdade um pequeno ensaio sobre a poética lupiciana, uma citação do próprio poeta mata a cobra e mostra o pau: “Uma pessoa prestando atenção /Vê que as rimas dos versos / Que eu faço / Trazem pedaços do meu coração”. (samba “Ponta de lança”).

No longo depoimento que Lupicínio prestou para o MIS (1968), ele lembrou que o melhor de sua vida – isto é, o mais triste – estava em suas músicas, cada música sendo uma página de sua biografia.

Isso significa uma coisa muito simples: o poeta só entendia a vida na fogueira das paixões, todas transcritas para suas canções.

Quando visitei Porto Alegre, para ali instalar o MIS do Rio Grande do Sul (1969), o então governador (um simpático coronel chamado Perachi Barcellos) perguntou-me o que fazer à noite. “ – Quero rever meu amigo Lupicínio” – prontamente respondi. A solicitude do poder fez disparar pela noite da cidade uns dois ou três carros da polícia à procura do poeta. Debalde. No dia seguinte, o Lupi me procurou no hotel e, ao indagar a ele o porquê do seu sumiço na noite anterior, ele se saiu apenas com um muxoxo: “ – Mas tu nem imaginas, a polícia andou me procurando, e, logo eu, sem qualquer culpa...”. Engoli em seco e mudei rapidamente de assunto.



Ricardo Cravo Albin

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