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Lundu



Dados Artísticos

O lundu (landum, lundum, londu) é dança e canto de origem africana introduzido no Brasil provavelmente por escravos de Angola. Da mesma forma que a modinha, há inúmeras controvérsias quanto à sua origem. Confundido inicialmente com o batuque africano (do qual proveio), tachado de indecente e lascivo nos documentos oficiais que proibiam sua apresentação nas ruas e teatros, o lundu em fins do século XVIII não era ainda uma dança brasileira, mas uma dança africana do Brasil. Segundo Mozart de Araújo, é a partir de 1780 que o lundu começa a ser mencionado nos documentos históricos. Até então, era dada a denominação de batuque aos folguedos dos negros. Enquanto dança, a coreografia do lundu foi descrita como tendo certa influência espanhola pelo alteamento dos braços e estalar dos dedos, semelhante ao uso de castanholas, com a peculiaridade da umbigada. Traço característico e predominante em sua evolução seria o acompanhamento marcado por palmas, num canto de estrofe-refrão típico da cultura africana. Quando a umbigada passa a se disfarçar como simples mesura, o lundu ensaia sua entrada nos salões da sociedade colonial.

Como gênero de música cantada, a mais antiga menção ao lundu-canção é encontrada nos versos de Caldas Barbosa que, além da modinha brasileira, implantou na Côrte portuguesa a moda do lundu cantado à viola. No segundo volume da coletânea de seus versos (publicados postumamente), seis composições aparecem expressamente citadas como lundus. Ao comentar a supremacia do lundu sobre as danças em voga em Lisboa, diz Caldas Barbosa: "Eu vi correndo hoje o Tejo/Vinha soberbo e vaidoso/Só por ter nas suas margens/O meigo Lundum gostoso/Que lindas voltas que fez/Estendido pela praia/Queria beijar-lhe os pés/Se o Lundum bem conhecera/Quem o havia cá dançar/De gosto mesmo morrera/Sem poder nunca chegar/Ai rum rum/Vence fandangos e gigas/A chulice do Lundum". D. José da Cunha Grã Athayde e Mello, em carta de 1780, afirma ser o lundu dança comum entre brancos e mulatos: "Os pretos, divididos em nações e com instrumentos próprios de cada uma, dançam e fazem voltas como arlequins, e outros dançam com diversos movimentos do corpo, que, ainda que não sejam os mais indecentes, são como os fandangos em Castella e fofas de Portugal, o lundum dos brancos e pardos daquele país." Referências ao lundu são também encontradas nas "Cartas Chilenas" de Tomás Antônio Gonzaga, que começam a circular em Minas Gerais em 1787: Aqui lascivo amante, sem rebuço/À torpe concubina oferta o braço/Ali mancebo ousado assiste e fala/À simples filha que seus pais recatam/A ligeira mulata, em trajes de homem/Dança o quente lundum e o vil batuque. Num próximo passo, de canção solista o lundu transforma-se em música instrumental, ponteado à viola ou ao bandolim, ou executado ao cravo. Um dos mais antigos registros musicais desse tipo de dança encontra-se nas "Canções populares brasileiras e melodias indígenas", recolhidas no Brasil por Martius entre 1817 e 1820. Uma das peças é o "Landum, Brasilianische Volktanz", composição na qual um pequeno motivo, construído sobre as harmonias de tônica e dominante, é executado em forma de variações. O lundu-dança continuou a ser praticado por negros e mestiços enquanto o lundu-canção passou a interessar aos compositores de escola e músicos de teatro, onde era feito para ser dançado e cantado com letras engraçadas e maliciosas. Já em fins do século XIX, esse aspecto foi intensamente explorado por Laurindo Rabelo, o poeta Lagartixa que, acompanhando-se ao violão, depois de determinada hora improvisava com facilidade lundus especiais ouvidos só por homens. Para que se possa vislumbrar o profundo conteúdo e a temática envolvida nas canções, segue o exemplo: O diabo desta chave

Que sempre me anda torta/Por mais jeitos que lhe dê/Nunca posso abrir a porta/Tome lá esta chave/Endireite, sinhá..../Voce é quem sabe/O jeito que lhe dá...

seguido de outro lundu/Eu possuo uma bengala/Da maior estimação/É feita da melhor cana/E tem o melhor castão/A minha bela caseira/Toda inteira se arrepia/

Quando três vezes por dia/Não dou bengaladas nela/E concluía: Lhe fincando a bengalada!. Como canção, o lundu fez grande sucesso no início do século XX, cantado em circos de todo o Brasil e em casas de chope no Rio de Janeiro. Referências clássicas do gênero são as gravações realizadas para a Casa Edison pelo palhaço Eduardo das Neves, como a dos lundus "Isto é bom", de Xisto Bahia, considerada a primeira obra a ser gravada na história da música popular brasileira, e o "Bolim bolacho", de autor desconhecido.

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