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Leopold (Anthony) Stokowski

Leopold (Anthony) Stokowski
18/4/1882 Londres, Inglaterra
13/9/1977 Nether Wallop

Dados Artísticos

Seu interesse para com a MPB reside no fato de ter dirigido, em 1940, a produção de oito discos de 78 rpm, com seus 16 fonogramas, que reuniam o que de mais autêntico havia na música popular do Brasil na época. O elenco, organizado por Villa-Lobos, desprezou os grandes astros da música comercial de então. Com isso conseguiu registrar o primeiro solo vocal de Cartola, os dois únicos fonogramas existentes com a música e a voz de Zé Espinguela, o coro da Mangueira com as vozes de D. Neuma e de suas irmãs, o primeiro acompanhamento em disco do violão de Aluísio Dias, além de emboladas de Jararaca e Ratinho, solos de clarineta de Luís Americano, acompanhamentos de flauta de Pixinguinha e até uma adaptação de Villa-Lobos para Canidé Joune, tema indígena recolhido por Jean de Lery no Rio de Janeiro, em 1553.

Um inesperado conjunto de circunstâncias se estruturou para pôr em contato o erudito maestro anglo-saxônico com os mais genuínos portadores da mestiça criação musical do povo brasileiro. Em junho de 1940, após uma campanha militar de apenas mês e meio, o exército de Hitler derrotou a França. Toda a Europa, exceto a Inglaterra, estava sob a bota nazista. Em sua história da 2ª Guerra Mundial, Winston Churchill escreveu: "um profundo pânico apoderou-se dos Estados Unidos e se difundiu mesmo por todos os países livres". Roosevelt, prestes a disputar o terceiro mandato presidencial, não hesitou em começar a tomar as medidas capazes de preparar os norte-americanos para as vicissitudes futuras que os fatos prenunciavam. Seu instinto político não lhe permitia ter dúvidas sobre o inevitável envolvimento dos Estados Unidos no conflito. Urgia desenvolver uma política de estreitamento das relações com os outros países do continente. Todos os recursos foram mobilizados para isso, desde o financiamento de grandes usinas siderúrgicas e outras obras básicas para o desenvolvimento, até as apresentações de astros consagrados internacionalmente nos diversos setores artísticos. Foi esse "profundo pânico" mencionado por Churchil que trouxe ao Brasil o maestro Stokowski, a bordo do navio Uruguai, da Frota da Boa Vizinhança. Com ele vinham os músicos da All American Youth Orchestra e um grupo de técnicos da Colúmbia. A orquestra daria concertos nos países visitados e os técnicos, sob direção de Stokowski, gravariam melodias típicas de cada região, destinadas a um futuro Congresso Pan-Americano de Folclore. O Brasil seria o primeiro país a receber os visitantes, que depois rumariam para o Uruguai, a Argentina e outras nações latino-americanas. Stokowski telegrafou a Villa-Lobos pedindo-lhe que selecionasse os artistas e orientasse a escolha do repertório. Na noite de 7 de agosto de 1940, no armazém quatro do cais do porto, a bordo do navio Uruguai, foram realizadas as gravações das 40 seguintes músicas: Seu Mané Luís, partido alto de Donga e Cícero de Almeida;

Meu amor, samba de morro de Cartola (Angenor de Oliveira) e Aluísio Dias; Festa encrencada, samba de breque de José Gonçalves; Passarinho bateu asa, toada de Donga; Sapo dentro do saco, embolada de Jararaca; Orimé, macumba de Zé Espinguela (José Gomes da Costa); Hoje é dia, Zé Espinguela;

Samba da lua, batucada de Donga e Davi Nasser;

Intrigas no boteco do Padilha, choro de Luís Americano;

Tocando pra você, Luís Americano; Luís Americano no Lido, Luís Americano; Bole-bole, maxixe de José Gonçalves; Caboclo do mato, fantasia sobre macumba de João da Baiana; Quequerequequê, João da Baiana; Pelo telefone, samba de Donga e Mauro de Almeida; Bambu, embolada de Donga;

Primeiro amor, samba de morro, de Cartola e Aluísio Dias; Apanha irmão, samba de Jararaca;

José Barbino, maracatu de Pixinguinha (Alfredo da Rocha Vianna); Na praia, modinha de Raul Morais;

Saia da morena, embolada de Donga; Tristeza, samba de morro de Cartola; Quem me vê sorrir, samba de Cartola e Carlos Moreira de Castro; Ranchinho desfeito, de Donga e David Nasser; Cambinda velha, frevo de Pixinguinha; Urubu malandro (variações), samba de Pixinguinha; Amarra a vaca, embolada de Jararaca;

Alma de tupi, modinha de Jararaca; Taco-taco, desafio de Jararaca; Sofre quem faz sofrer, samba de Donga e David Nasser; Romance de um índio, de Donga e Davi Nasser; Curimachô, macumba de Zé Espinguela;

Camandaué, candomblé de Zé Espinguela;

Meu jardim, marcha de rancho de Donga e Davi Nasser; Ranchinho desfeito, de Donga e Davi Nasser (foi gravada duas vezes); Acoroagô, candomblé de Zé Espinguela; Canide-ione, cântico ameríndio, ambientação de Villa-Lobos; Nozani-na, cântico ameríndio, ambientação de Villa-Lobos;

Teiru, cântico ameríndio, ambientação de Villa-Lobos.

Os discos da Colúmbia não foram publicados aqui na época. Fernando Sabino relatou que: "Nos idos de 40, caiu-me nas mãos, em Nova York, uma coleção de discos de música brasileira gravada sob responsabilidade de ninguém menos que Leopold Stokowski. Lá estavam, entre outras raridades, o famoso 'Pelo telefone', de Donga, considerado oficialmente o primeiro samba brasileiro, e 'Quem me vê sorrir', de Agenor (aliás Angenor) de Oliveira, dito Cartola. Não tive dúvida, mandei os discos de presente para Lúcio Rangel, pois estariam em melhores mãos e ouvidos". Em 1987, quase meio século depois, o Museu Villa-Lobos conseguiu reproduzir no LP- Minc/Fnpm, MVL033 os dois álbuns originais da Colúmbia, acompanhados de um precioso encarte informativo. Turíbio Santos, diretor do Museu Villa-Lobos, considerou a "reportagem musical" realizada por Stokowski como "um tesouro inestimável". Suetônio Soares Valença e Ary Vasconcelos conseguiram dar, no encarte, todas as informações necessárias à compreensão do significado do disco e das músicas que o compõem.

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