Busca:

Hermeto Pascoal

Hermeto Pascoal
22/6/1936 Lagoa da Canoa, AL

Crítica

Hermeto Pascoal é albino, baixinho, gordinho e quase cego. Em compensação é gênio. E gênio com G maiúsculo por duas razões. Primeiro porque ele – só ele – é capaz de inventar os sons mais originais do mundo para recriar a música. E depois porque ele administra esses sons com extrema sutileza, elegância e precisão.

Ou seja, Hermeto é o maestro de si mesmo, um homem-orquestra. O bruxo das Alagoas faz tudo. Ou seja, compõe músicas e toca todos os instrumentos. E quando eu me refiro a instrumentos, em se tratando de Hermeto, vamos logo dividi-los em duas partes. Os instrumentos tradicionais – como piano, cavaquinho, flauta, bombardino, violão, órgão e mais 15 outros, tais como sax soprano, sanfona etc. – e os instrumentos inventados pelo gênio do grande músico, que tira seus sons estranhos (e lindos, podem crer!) de garrafas plásticas, copos com água, máquina de costura. É muito? Não, porque tudo que Hermeto tem à sua frente pode virar som no minuto seguinte, como bomba de encher bola de gás e até mãos passando nas roupas do corpo.

Aliás, o cheiro do Brasil e o de suas grandes veias musicais está presente nos discos de Hermeto.

Tempos atrás, durante um especial gravado na Rádio MEC, Hermeto me comoveu quando falou das crianças.

E por uma razão muito simples: ele se orgulha de preservar a simplicidade das crianças, segundo ele o caminho mais direto para o encontro da divindade ou de Deus.

E Hermeto – compreendi isso agora – conseguiu o impossível, que é ser um arauto da modernidade, da invenção, do passo à frente e ser de uma simplicidade cativante, de um despojamento de que só mesmo ou os gênios ou os santos são capazes.

Se você, ó leitor incrédulo, pensar que Hermeto é apenas um produto exótico e circense, pode ficar certo de que a consagração internacional do nosso homem-orquestra está a indicar exatamente o oposto.

Ele me falava outro dia que sua carreira internacional (começada a partir de 1970) só lhe trouxe alegrias, como as de ser gravado por Miles Davis, seu fã número um e que lhe abriu as portas do jazz mundial.

“Pois é, o Miles gostou tanto que queria gravar todo um elepê só comigo e com músicas minhas. Mas eu tive que voltar para fazer um sonzinho lá no Jabour (distante subúrbio carioca) e me mandei. Por isso não fiz.”

Esse tipo de procedimento, descontraído e franciscano, só pode ser mesmo o de um gênio. Ou você duvida?



Ricardo Cravo Albin

Mais visitados
da semana

1 Ivan Cavalcante Proença
2 Pixinguinha
3 Noel Rosa
4 Tom Jobim
5 Pedro Bento e Zé da Estrada
6 Zazá e Zezé
7 Caetano Veloso
8 Hermeto Pascoal
9 Festivais de Música Popular
10 Adriana