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Elza Soares

Elza da Conceição Soares
23/6/1937 Rio de Janeiro, RJ

Crítica

Uma das figuras mais extravagantes, talentosas e de estilo ímpar da MPB chama-se Elza Soares. Surgida em 1959, recriando o samba “Se acaso você chegasse”, do repertório de Cyro Monteiro, ela chegou e arrasou. Aliás, seu lado “cheguei!” a perseguiu a vida inteira. É impossível não notar a presença de Elza onde quer que a mulata chegue. Além da plástica corporal sempre enxuta, sua voz rouca e rítmica – única – parece mais um instrumento de percussão quando canta samba. Tudo isso, aliado aos seus “scats”, deu uma forma inteiramente nova aos dois estilos de samba que se conhecia quando ela surgiu, o samba de raiz e a bossa nova, criando um estilo novo que chegou mesmo a ser chamado de “bossa negra” para implicar com a bossa “branca” feita pelos riquinhos da zona sul do Rio.

Com o passar do tempo, Elza modernizou-se ainda mais. Os arranjos de seus discos deixaram de ser excessivamente orquestrados, como na fase áurea em que gravou na Odeon, entre 1959 e 1974, e passaram a ser na maioria das vezes mais percussivos. Isso quando ela conseguia gravar. Após uma fase de menos prestígio, nos anos 70, quando gravou no selo Tapecar, a partir dos 80, ela cortou um dobrado para conseguir se impor num mercado cada vez mais curvado aos modismos. Aliás, não foi só em relação a isso que ela precisou lutar em sua vida. Segundo José Louzeiro, que em 1997 escreveu a biografia “Cantando para não enlouquecer”, ela teve pelo menos seis altos e baixos em sua vida e carreira.

Elza experimentou emoções fortes em sua trajetória. Da miséria à riqueza, do assédio ao descaso da mídia, da paixão ao abandono. Algumas vidas e algumas mortes. Foi lavadeira, casou-se forçada pelo pai aos 12 anos e chegou a perder três filhos, que morreram de fome. Mesmo assim, nunca foi de esmorecer: foi com a cara e a coragem num programa de Ary Barroso e ganhou a nota máxima, após passar pelo constrangimento de ouvir do apresentador piadas devido à sua origem humilde. Depois foi para a Argentina, onde trabalhou com a Companhia de Mercedes Batista. Anos mais tarde conseguiu a chance de cantar no rádio e gravar na Odeon graças aos cantores Moreira da Silva e Silvinha Telles. Ganhou fama, sucesso e dinheiro; construiu a primeira casa com piscina, ganhou elogios de Louis Armstrong, no Chile, em 1962, e se casou com Garrincha, o mito do futebol brasileiro, com quem viveu uma intensa paixão.

Na época das vacas gordas, chegou a ganhar 300 contos quando o craque do futebol, no seu auge, ganhava apenas 50. Aturou o alcoolismo desse mesmo homem, ainda por cima comendo o pão que o Diabo amassou por causa da opinião pública, que julgava ter sido sua a culpa de Garrincha ter morrido pobre e desamparado. Mesmo com tanta perseguição, no auge da carreira, nos anos 60, gravou e fez muito sucesso com discos clássicos como “O máximo em samba” (1967), “Elza Soares & Wilson das Neves” (1968), uma série de três álbuns com Miltinho (“Elza, Miltinho e samba”), verdadeiras aulas de ritmo, e, em 1972, bateu o pé em sua gravadora e conseguiu dividir um LP com o então estreante sambista Roberto Ribeiro – “Sangue, suor e raça”.

Foi nos anos 60 que teve o maior número de sucessos, como “Se acaso você chegasse”, “Boato”, “Edmundo” (versão de “In the mood”), “Beija-me”, “Devagar com a louça”, “Mulata assanhada”, “O mundo encantado de Monteiro Lobato”, “Bahia de todos os deuses”, “Palmas no portão”, “Palhaçada”, ainda que nos anos 70 tenha brilhado com “Salve a Mocidade” (1974) e “Malandro” (1977), esta última lançando Jorge Aragão como compositor. Mais tarde, perdeu tudo que possuía. Ficou sem emprego, chegou a pensar em desistir de cantar. Foi quando Caetano Veloso a convidou para gravar “Língua”, em seu LP “Velô”, em 1984, que Elza voltou a ser notada pela mídia. Em 1985, o roqueiro Lobão e o mesmo Caetano patrocinaram um disco coroando sua volta, “Somos todos iguais”. “Voltei”, o seguinte, viria três anos depois. Ambos, sem o merecido sucesso. Nesse meio tempo, mais uma tragédia: perdeu outro dos nove filhos que teve – o Garrinchinha – num acidente de carro, em 1986.

Tentou a sorte fora do país de 1986 a 1994, mas não deu certo. Depressões, desencantos. Elza, no entanto, sempre soube recomeçar e toda vez que pisou num palco, causou comoção. Porque seu vigor, mesmo já depois dos 60, era espantoso. Por sinal, ela sempre escondeu a idade e realmente no palco parece uma garota, sambando com saltos enormes e minissaia, modelitos adotados a partir de meados dos anos 80, num estilo “perua chique” que a marcaria até os dias atuais. Musicalmente, a influência do jazz passou a ser mais forte, mas, mesmo assim, nunca deixou de gravar pérolas tipicamente brasileiras, como sambas-de-enredo, dos quais Elza sempre foi exímia intérprete.

Não foram apenas os arranjos que mudaram em seus discos. Elza, com o tempo, aprimorou-se como intérprete, tornando-se cada vez mais visceral e teatral. Ela soube renovar-se e, ao ser convidada para participar do CD “Casa de samba” (1996), voltou a aparecer mais constantemente na mídia. Gravou novo álbum solo após nove anos, “Trajetória” (1997), ganhando com ele o Prêmio Sharp de Melhor Cantora de Samba, e depois o independente “Carioca da gema”, ao vivo (1999). Nesse meio tempo, fez shows em tudo que é canto do Rio de Janeiro e virou tema do musical teatral “Crioula”, no ano 2000, escrito e dirigido por Stella Miranda. Quem já viu a energia de Elza no palco pode dizer sem exagero que ela não fica a dever, comparada às maiores divas da música popular do planeta.



Rodrigo Faour

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