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Dóris Monteiro

Adelina Dóris Monteiro
21/10/1934 Rio de Janeiro, RJ

Crítica

Há certos cantores que extrapolam sua própria importância e são considerados como “históricos”.

Dóris Monteiro começou em pleno início da década do samba-canção, 1950. Mas, apesar de ter cantado todos os sambas doloridos que tinha direito, Dóris sempre teve dentro dela a descontração e o fraseado da bossa nova. Ou, ao menos, de uma música mais moderna, do mesmo jeito que Johnny Alf, Dick Farney e Lúcio Alves, companheiros seus de geração, de 1950 para cá. Pois foi em 1950 que Dóris começou a ser observada pelo meio artístico, depois de participar como caloura no programa “Papel carbono”, de Renato Murce, na Rádio Nacional.

A filha de portugueses Adelina Monteiro era uma adolescente de 16 anos e usava uma trança única, que de tão comprida repousava romanticamente no colo bem talhado. Virgem juramentada, mudou de nome e logo começou a cantar na permissiva radiofonia carioca — primeiro Rádio Guanabara, logo depois Rádio Tupi, onde se faria estrela em menos de um ano. Mas — fato importante para os cronistas da época — preservou a virgindade a sete chaves. Ela, propriamente não, porque sua guardiã era a mãe, uma austera senhora de buço, que não deixava a filha solta um minuto sequer, marcação cerrada que fez as delícias do começo da década de 50. Sérgio Porto, o fero Stanislaw Ponte Preta, me diria, anos depois, que Dóris Monteiro foi a virgem mais cobiçada pelos gaviões em toda a história da MPB. Dóris cantava na Tupi, gravava na Todamérica (“Se você se importasse”, Peterpan, seu primeiro sucesso, em 1951) e filmava, como estrela, “Agulha no palheiro” (1953) e “Rua sem sol” ( 1954), ambos de Alex Viany. Sempre com a mãe ao lado. Mamãe só a deixou quando – envergando, é claro, um esvoaçante vestido branco de noiva e frente ao altar – Dóris se casou com um cadete da Marinha (1954), união que acabaria em pouco tempo para alívio geral dos seus muitos fãs.

Livre, Dóris recomeçou a carreira e logo descobriria Fernando César, um industrial cujo hobby era compor e de quem gravou grandes sucessos como “Graças a Deus” e “Joga a rede no mar”, além do triunfal “Dó ré mi” (Você é dó/ É ré, mi, fá / É sol lá si). E foi um não parar mais de fazer sucesso. Até porque tinha um programa só seu na TV Tupi, queridíssima que era do dono da emissora, o galante “tycoon” Assis Chateaubriand. Em 1956, por exemplo, Billy Blanco entregou-lhe, entre outras jóias, a vigorosa crônica carioca de época “Mocinho bonito” (Que é falso malandro de Copacabana/ O mais que consegue é vintão por semana/ Que a mana do peito jamais lhe negou) e que encabeça seu amplo repertório até hoje.

Há poucos anos atrás, quando a radiofonia celebrou 75 anos, escrevi e dirigi um espetáculo no BNDES estrelado por Emilinha Borba, Ivon Curi, Zezé Gonzaga e Dóris Monteiro. A ação se passava em 1954. E era conduzida pelo ator Gerdal dos Santos, fazendo o papel de Vítor Costa. Pedi a Dóris que envergasse de novo sua famosa trança única e selecionei seus sucessos de quase 50 anos atrás. No que ela abriu a boca, as quase mil pessoas cantaram junto todas as suas antigas criações.

Prova provada que saudade não tem idade. E que o bom volta sempre. Especialmente, em se tratando de uma estrela do porte de Dóris Monteiro.



Ricardo Cravo Albin

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