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Dolores Duran

Adiléa da Silva Rocha
7/6/1930 Rio de Janeiro, RJ
24/10/1959 Rio de Janeiro, RJ

Crítica

O primeiro grande resgate que se fez de Dolores Duran ocorreu – convém lembrar – com “Brasileiro, profissão esperança” (de Paulinho Pontes), quando a paixão da diretora Bibi Ferreira exibia a fossa incandescente (canções e fragmentos de vida) tanto de Dolores quanto de Antônio Maria. Os dois foram bafejados, desde então, como titulares imbatíveis da dor-de-cotovelo. Chorar as dores do amor, tomar um porre monumental porque foi abandonado? Nem discutir a receita: colocar no toca-discos os sambas-canções desesperados de Dolores ou Antônio Maria, de preferência “Fim de caso” e “Por causa de você” (de Dolores) ou “Ninguém me ama” e “Se eu morresse amanhã” (de Maria).

Os rios de lágrimas e os lenços empapados estariam assegurados. De Dolores, contudo, a impressão que me ficou foi de alegria. Explico: eu a ouvi uma única vez no Little Club, em Copa. Era o começo de 1959 e, para comemorar tanto meu ingresso na Nacional de Direito quanto minha maioridade (18 anos), dei-me de presente ir à boate onde ela cantava.

Dolores entra 15 minutos depois e, para surpresa minha, parecia resplandecer de felicidade. Era uma mulher baixa, um pouco gorda, em cuja face dois olhinhos quase orientais disparavam lampejos de vida – jamais de fossa. Embaixo do foco de luz, as bochechas salientes do rosto me pareciam fazer um estranho contraponto – ou, sei lá, até integração – com a saia godê (bem rodada, em inacreditável cor rosada). O “set” de Dolores duraria exatos 40 minutos, cravados avaramente no relógio de formatura do Pedro II, recém-dado por minha avó.

Dolores – animada por aquela felicidade que não me parecia usual – desfiou, um a um, os sambas mais quentes da época, especialmente os de Billy Blanco. Animei-me a fazer o primeiro pedido: “Praça Mauá”, gritei do fundo do bar. Dolores respondeu, desvendando de vez o tom daquela alegria compulsiva: ”Essa é a mais triste do Billy, que tal “Estatuto de gafieira”? E, de samba em samba, Dolores passou para a música do Nordeste. Começou imitando a Almira, do Jackson do Pandeiro, com “Fia de Chico Brito” (de Chico Anysio). O público gargalhava, surpreso. E logo engrenou com “Se avexe, não” (também de Chico e, como a anterior, de seu repertório), a que se seguiram outras animações musicais.

Eu, que vinha preparado para me inundar de fossa e noites do meu bem, não acreditava no que ouvia. Nem muito menos naquela alegria desenfreada de Dolores. E gritei-lhe o último pedido: “A noite do meu bem”. A endiabrada cantora não se fez de rogada: marcou um compasso dois por quatro nos dedos e cantou sua fossa clássica, mas em quase esfuziante ritmo de jazz. Brilhante, por sinal.



Ricardo Cravo Albin

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