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Cartola

Angenor de Oliveira
11/10/1908 Rio de Janeiro, RJ
30/11/1980 Rio de Janeiro, RJ

Crítica

A música de Cartola é pura elegância. Ou seja, se elegância e classe pudessem ser medidas em traje inglês formal, à cartola do Cartola só faltariam mesmo a luva e o “smoking”.

Nem é pra menos. Cartola de Mangueira é o verdadeiro príncipe do samba urbano carioca. Príncipe no esgrimir versos para suas músicas – afinal, quem fez versos como “as rosas não falam/ simplesmente as rosas exalam o perfume/ que roubam de ti” —, é poeta com P maiúsculo. Príncipe na maneira discreta e sem firulas com que fazia sambas - espontâneos e naturais, como se estivesse degustando uma dose de “scotch” 12 anos, na intimidade de uma birosca.

Príncipe, finalmente, no trato pessoal. Quem o conheceu tão bem como eu, terá sido testemunha de um dos convívios mais amáveis e ternos que a MPB produziu.

Cartola, o nosso Agenor de Oliveira, nascido no Rio há mais de 90 anos atrás, tinha a delicadeza de um Pixinguinha, a elegância natural de um Ataulfo Alves e a dignidade de um mestre-sala — daquele do samba do Aldir Blanc.

Quando convidei Cartola em 1975 para gravar todo um programa de meia hora na Rádio MEC sobre sua vida e obra para a série “MPB-100” — depois editada em oito elepês, que resumiram a história da música popular – ele me respondeu: “Claro que eu vou, mas você não acha que há gente melhor que eu por aí?” “Então me diga quem!”, devolvi, fazendo-lhe uma provocação. Cartola não se fez de rogado e desfilou uma relação de mais de 20 nomes que começavam com Nélson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Herivelto Martins e terminavam com Martinho da Vila, Paulinho da Viola e Candeia.

Uma outra vez, visitando-lhe no barraco ao sopé do morro da Mangueira, encontrei-o sentado numa cadeira, pernas cruzadas, atracado ao violão, de onde saíam maviosos acordes. Ao lado, numa tosca mesinha, um copo de cerveja. A impressão que me ficou daquele homem simples, modestamente vestido e com a camisa entreaberta no tórax magro, era a de um fidalgo. Por quê? Sei lá. E como é que vou explicar essas pessoas tão mágicas e raras? Cartola – era ele polidíssimo e discretamente afável, como convém a um príncipe – quase que sussurrou para Zica: “Capricha aí, Zica, no molho de ferrugem da carne assada, que hoje temos convidado muito especial.”

Assim era Cartola. O modesto ex-pedreiro, depois desempregado, depois lavador de carro, depois contínuo do gabinete do Ministério da Indústria – ali no prédio da “Noite”, na Praça Mauá, onde o conheci fardado, abrindo portas —, mas sempre com a tal elegância de um mestre-sala. Assim era Cartola, que fundou a Mangueira e que lhe escolheu as cores verde e rosa (repudiadas durante anos pelo preconceito burguês, até que um costureiro francês as usou numa coleção).



Ricardo Cravo Albin

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