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Assis Valente

José de Assis Valente
19/3/1911 Bahia
10/3/1958 Rio de Janeiro, RJ

Crítica

A memória de Assis Valente – vez por outra – é reaquecida. Assim foi quando o mundo ficou de acabar no segundo semestre de 1999 e todas as rádios e tevês sapecaram pelos ares o clássico de Valente “E o mundo não se acabou” (Anunciaram e garantiram/ que o mundo ia-se acabar/ E a minha gente lá de casa/ começou a rezar...).

José de Assis Valente foi o compositor baiano que escreveu toda sua obra no Rio. Sempre insisti na tecla que Assis foi o primeiro baiano que se transformou em carioca de alma. Ou seja, um cronista – admirável, por sinal – das ruas, da alma e do cotidiano da cidade. Diferentemente de seu conterrâneo Caymmi, que sempre permaneceu baianíssimo em alma e obra e a quem Assis, aliás, estendeu a mão generosa quando ele aqui aportou em 1938.

Ainda outro dia conversei longamente com o acadêmico Eduardo Portella, também baiano, que sabe tudo sobre o vate baiano-carioca. Portella, com a graça e cultura habituais, traçou-me um surpreendente painel sociológico sobre o perfil da obra de Assis Valente, em que chamava a atenção para a disparidade entre a alegria extravasada em suas músicas-crônicas, de um lado, e a carga trágica de sua vida pessoal, de outro.

Com efeito, contam-se nos dedos as tristezas expressas em música pelo poeta. Uma delas, contudo, é até hoje lembrada, o “Boas-festas”, a mais bela canção de Natal jamais escrita no Brasil. E a mais dilaceradamente triste: “Anoiteceu, o sino gemeu/ Sozinho estou, tristonho a rezar”.

Terá sido provavelmente esse sentimento de solidão que levou Assis Valente a tentar três vezes o suicídio? Numa dessas vezes atirou-se do alto do Corcovado. A notícia comoveu o país e era acompanhada de desdobramentos que davam conta de uma paixão secreta por sua intérprete favorita, Carmen Miranda, que lhe gravou jóias como “Camisa listrada”, “Uva de caminhão”, “Good-bye boy”, além de “E o mundo não se acabou”.

Na década de 50, apesar da profissão de protético, que nunca deixou de exercer, Assis Valente ficou empobrecido e suas músicas já não mais eram tocadas.

No dia 10 de março de 1958 comprou uma garrafa de veneno e dirigiu-se à Praça Paris. Antes ligou para Paschoal Carlos Magno e falou de sua intenção de matar-se. Paschoal me disse – muito tempo depois – que levou a ameaça do compositor na brincadeira e ainda por cima lhe despejou uns impropérios.

No dia seguinte, todos os jornais da cidade registravam a terceira, bem-sucedida, tentativa de suicídio do cronista e poeta popular.

E a MPB debulhou-se em lágrimas.



Ricardo Cravo Albin

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