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Antônio Maria

Antônio Maria Araújo de Morais
17/3/1921 Recife, PE
15/10/1964 Rio de Janeiro, RJ

Crítica

A vida, para os anos 50, na música brasileira, se dividia entre os que xaxavam e os que boleravam. Antônio Maria apresentou uma terceira via: o samba-canção. Não estava sozinho, claro. Nas boates de Copacabana não se fazia outra coisa. Era uma música perfeita, suave, repleta de decepções elegantes sobre a vida amorosa, tudo na medida e nada mais para aquele ambiente novo que se construía: pequenas casas de luz mortiça, música baixinha e o culto ao uísque, que relaxava e deixava o olho no olho mais sensível para desabafos. O Rio estava deixando a boêmia navalhada da Lapa e inventando a zona sul. Antônio Maria, cronista maior das noites de Copacabana, sofria de todas as dores de amor e, pior, quase todas reais. A cultura francesa ainda dava as cartas no mundo, com suas angústias existenciais, suas náuseas sartreanas, e isso ajudou a embebedar Maria, criador de “Ninguém me ama”, aquela do sujeito que vai pela vida “de fracasso em fracasso”. O amor era uma doença. A vida não valia a pena. “Onde anda você”, outro clássico de Maria, começa com os versos “fui como um resto de bebida que você jogou fora”. Era a fossa, a dor-de-cotovelo, musicalmente uma tradução sofisticada para o desespero cafona dos boleros que dominavam a parada de sucessos. Maria misturava-se nas boates com os rapazes que estavam dando os últimos retoques na bossa nova. O movimento seria solar, alegre, praieiro. Maria era noturno, soturno, infeliz. Eram, no entanto, todos sofisticados demais, e “Manhã de carnaval”, de 1958, composta por Maria e Luiz Bonfá, é o exemplo mais claro, por sua esperança e referências a manhãs tão bonitas manhãs, que tinham bossa e Maria, tudo a ver. Teriam todos chegado a um acordo se Maria não brigasse (por causa de mulher, claro) com Ronaldo Bôscoli e não tivesse morrido tão cedo. Ao dar uma forma sofisticada para o bolero, tratar o texto romântico com um acabamento técnico ainda raro na MPB, Maria – longe de ser o inimigo público número um do movimento – ajudou a preparar o terreno para que a bossa nova fizesse nascer o sol e navegar o barquinho mais adiante no Arpoador.



Joaquim Ferreira dos Santos

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