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Ângela Maria

Abelim Maria da Cunha
13/5/1929 Conceição de Macabu, RJ
29/9/2018 São Paulo, SP

Crítica

Dos anos 50 ao início dos 60, não houve uma voz que suplantasse a de Ângela Maria. Só dava ela. Virou diva da noite para o dia, pois sua voz era um cristal.

Além do mais, Ângela era uma jovem linda e graciosa. E cantava um repertório essencialmente romântico, recheado de sambas-canção, o que a consagrou definitivamente como musa popular. E, diga-se de passagem, gravou muito. Ao lado de Elizeth Cardoso (que, infelizmente, nunca conseguiu vencê-la em popularidade), foi a cantora brasileira que mais gravou. A partir de 1955, quando começaram a sair seus primeiros elepês de 10 polegadas (de 1951 até então, eram apenas 78 rpm), houve uma enxurrada deles no mercado.

Eram, no mínimo, dois discos por ano até meados dos anos 60. Ao todo foram cerca de 50 elepês, mais um punhado de compactos, 78 rpm e faixas especialmente gravadas para projetos os mais variados.

Ângela Maria é uma referência geral de voz feminina na MPB, tendo influenciado boa parte de suas sucessoras, como Elis Regina e Clara Nunes, e sendo referência até mesmo para cantores, como Cauby Peixoto e Djavan.

Famosa pelos agudos bem dados e pelos finais sempre apoteóticos das canções que interpreta, ela sempre foi interessante pela maneira como se lança às canções que canta. Pode ser a maior bobagem – ela dá tudo de si. Sambas, mambos, calipsos, chá-chá-chás, boleros, tangos, fados, toadas, guarânias, baladas... Ângela cantou muitos ritmos brasileiros ou latinos, especialmente, mas a maioria esmagadora de seus sucessos foram mesmo os sambas-canção, à exceção do mambo cubano “Babalu”, que ela lançou em 1958 num álbum com a orquestra de Waldir Calmon, até hoje seu maior sucesso. O curioso é que a faixa foi gravada sem que ela soubesse, durante um ensaio, sem a necessidade de repeti-la, de tão sublime o resultado.

Até o começo dos anos 60, seu repertório era munido de grandes compositores da MPB e de outros de nem tanto prestígio, mas que tiveram a sorte de compor canções que caíram como uma luva para sua voz quente. Eram pérolas “kitsch” que se tornaram clássicas como “Vida de bailarina” (Américo Seixas e Chocolate), “Abandono” (Nazareno de Brito/Presyla de Barros), “Orgulho” (Waldir Rocha/Nelson Wedekind), “Fósforo queimado” (Paulo Menezes/Milton Legey/R. Lamego) ou “Lábios de mel” (Waldir Rocha).

A partir de meados dos anos 60, quando a MPB passou por uma verdadeira revolução graças aos talentos oriundos da bossa nova e dos festivais, Ângela ganhou uma famigerada pecha de cafona que a perseguiu durante muitos anos, não sem-razão, já que seu repertório a partir de 1964 era duro de engolir, com excessos de sambas-canção fracos, de Adelino Moreira e outros menos votados, exceção feita ao grande elepê “Ângela de todos os temas”, de 1970, que lançou ao sucesso “Gente humilde” (Garoto, Vinícius de Moraes e Chico Buarque) e de quebra trazia a diva entoando “Os argonautas” (Caetano Veloso), “Viola enluarada” (Marcos e Paulo Sérgio Valle) e “Noite de temporal” (Dorival Caymmi).

Em 1975, uma surpresa: o “Tango para Teresa” (Evaldo Gouveia/Jair Amorim) a levaria de volta às paradas. No ano seguinte, realiza o antológico show “Revista de rádio”, ao lado de Cauby Peixoto, na Boate Vivará, no Rio.

Pouco depois, em 1978, trocou a gravadora Copacabana pela Odeon e, produzida por José Milton, passou a gravar mais músicas à altura de sua voz, ainda que já um pouco modificada pelo passar do tempo. Ela continuava romântica, mas incluiu no seu repertório compositores contemporâneos dos anos 70 e 80, populares, como Wando e Fernando Mendes, ou sofisticados, como Chico Buarque, Gonzaguinha e Moraes Moreira (que compôs para ela “Sempre Ângela”, faixa título de seu elepê de 1983). Nessa época, gravou um elepê ao lado de Agnaldo Timóteo (1979) e outro ao lado de Cauby Peixoto (1982), ambos interessantes.

A partir de meados dos anos 80, ficou meio esquecida. Gravou dois discos na RGE e continuou fazendo shows pelas praças mais populares, só retomando a atenção da mídia em 1992 com um vitorioso show ao lado de Cauby Peixoto, no Rio, que deu origem a um novo álbum da dupla, gravado ao vivo e lançado em 1993, mesmo ano em que eles ganharam o Prêmio Sharp pelo conjunto da obra, em grande festa no Teatro Municipal do Rio. Em 1995, Ney Matogrosso lhe prestou um tributo em forma de CD. “Estava escrito” possuía apenas canções marcantes do repertório de Ângela e também virou show. No ano seguinte, a cantora voltou aos estúdios com o CD “Amigos”, no qual fez uma releitura de sua obra ao lado de grandes nomes da MPB, e chegou aos 500 mil discos vendidos. Em 1997, gravou um CD em homenagem à sua maior inspiração, a passional Dalva de Oliveira.

Vale lembrar que Ângela gravou todos os compositores brasileiros possíveis, dos anos 30 até hoje. De Noel Rosa e Pixinguinha a Cazuza e Renato Russo, passando por autores populares de todas as épocas. Ângela, apesar dos deslizes de repertório, é um exemplo de longevidade artística e da criação de um estilo absolutamente ímpar na MPB. Um mito incontestável e uma pessoa simples que nunca deixou que a fama lhe subisse à cabeça.



Rodrigo Faour

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