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Aldir Blanc

Aldir Blanc Mendes
2/9/1946 Rio de Janeiro, RJ
4/5/2020 Rio de Janeiro, RJ

Crítica

Com suas letras, muitas vezes beirando o escatológico, outras de um lirismo deliciosamente suburbano, Aldir Blanc é um admirável cronista carioca. Com assinatura pessoal e reconhecível já a partir da primeira frase, ele renova e mantém viva uma tradição que tem entre seus primeiros mestres na música popular Noel Rosa, mas que também se encontra no teatro e nas crônicas de Nelson Rodrigues, nos livros de um João Antônio, nas telas de um Rubens Gerchman, nos filmes dos anos 50 de um Nelson Pereira dos Santos. Ou, voltando à MPB, faz um inventário dos tipos e das ruas cariocas em canções como “De frente pro crime”, “Encontros cariocas”, “Kid Cavaquinho”, “Catavento e girassol”, “Mico-preto”, “Cachaça, árvore e bandeira”, “Delírio carioca”, “Dobra a língua”, “Dois pra lá, dois pra cá’, “Miss Suéter”, “Só dói quando eu rio”, “Prêt-à-porter de tafetá” e “Incompatibilidade de gênios”, que é comparável às fotografias da paisagem da cidade na obra de Tom Jobim (“Samba do avião”, “Corcovado” etc.).

Tais retratos do Rio, e do Brasil, botam Aldir entre os cinco maiores letristas da música popular brasileira. Letrista-compositor que mostra saber a diferença que existe entre os textos que escreve para as canções com a poesia e que também muito contribui para a música de seus parceiros. Prova maior disso é que o estilo sincopado ou embolerado dos sambas que fez com João Bosco prosseguiu em muitas das parcerias com Guinga, Edu Lobo, Moacyr Luz e Cristóvão Bastos.

No disco solo “50 anos”, que gravou com convidados em 1996 para comemorar o meio século de vida que completava, Aldir reafirmou suas principais características. Nas 20 faixas, a maioria eram composições inéditas – entre os grandes sucessos apenas foram incluídos “O bêbado e a equilibrista” (com João Bosco) e o pot-pourri com “Nação” (parceria com João Bosco e Paulo Emílio), “Querelas do Brasil” (com Maurício Tapajós) e “Saudades da Guanabara” (com Moacyr Luz e Paulo César Pinheiro). Nas restantes, Aldir alternou parcerias que iam de Guinga a Ed Motta, passando por Edu Lobo, Cláudio Jorge, Raphael Rabello, João de Aquino, Ivan Lins, mostrando uma exuberante criatividade e variado leque de temas. Antonio Carlos Miguel         ALDIR BLANC, TÃO GRANDE QUANTO NOEL ROSA   Não se surpreendam com o título deste pequeno réquiem, muito sofrido para mim, que dedico ao mais importante letrista da MPB desde Noel Rosa. E por que? Porque para os que amam e sentem os desvios e as esquinas da alma carioca, há poucos compositores capazes de absorver esses pequenos mistérios, mumunhas e segredos que só o Rio de Janeiro pode ostentar. Noel Rosa foi excepcional na carioquice. Tanto quanto Aldir Blanc.   Conheci Aldir Blanc em 1969, muito jovem, nos bastidores de um festival chamado Festival Universitário da MPB. Estava no júri, até porque eu tinha liberado o Museu da Imagem e do Som para chancelar aquele concurso original de músicas feitas por universitários. Pela primeira vez, depois dos avassaladores  FICs (Festivais Internacionais da Canção, que sacudiam o Maracanãzinho e o Brasil inteiro, provocando comparações e disputas entre os maiores nomes da então MPB mais jovem, como Chico Buarque, Edu Lobo, Milton Nascimento entre outros), o Festival Universitário, transmitido pela TV Tupi, já que o FIC era exclusivamente transmitido pela TV Globo, estava concorrendo com lançamentos de alguns de outros futuros gênios da MPB. Dos quais o principal fruto foi exatamente o letrista e personagem carioca Aldir Blanc.  O jovem estudante de medicina Aldir ganhou o festival de 1969 com a canção “Amigo é pra essas coisas”, interpretada pelo MPB 4, em parceria com Silvio da Silva Junior. Até pelo título, já se deduz o caráter solidário e generoso do proceder da poesia, sim, digo poesia, do Aldir. Ao cumprimentar o letrista nos bastidores do Festival demonstrei a ele, como é do meu feitio sanguíneo, o entusiasmo pela sua letra e pela música do parceiro João Bosco. E o convidei para um encontro em meu apartamento de Botafogo. Queria beber mais, e sofregamente, aquele poeta que despontava com músicas tão estimulantes e fraternas aos companheiros.   Para minha surpresa, uma semana depois Aldir tocou a campainha, trazendo a tiracolo um presente especialíssimo, a cantora Elis Regina em pessoa. Vocês podem imaginar a noite que pude viver, tanto porque Aldir abriu sua coleção de joias musicais, boa parte delas cantadas pela magia da voz de Elis. Desde aquele encontro afinamos nossa viola ideológica, sustentada na comiseração e força pela alma carioca. A partir dai fiquei absolutamente certo de que o grande Noel Rosa teria uma possível sequência temática em relação às letras, incrustradas de pérolas poéticas, em nível de percepção acadêmica e estética no mais alto patamar.   Quando fui convidado para lutar contra a censura em Brasília, recebi um amável telefonema do meu já amigo, dizendo confiar na derrota da burrice dos censores do DCDP, o temível Departamento de Censuras e Diversões Públicas da Polícia Federal de então. E antecipou um pedido que certamente poderia chegar às minhas mãos, a possível liberação pela quase certa proibição de “O Bêbado e o Equilibrista”, puríssima obra prima e crônica de época de irretocável beleza, que saudava a volta dos exilados políticos em 1979. O personagem principal de Aldir era o sociólogo Betinho. De tal maneira divulguei a possibilidade da censura em relação à canção, que ela acabou por receber uma amena, quase não violenta, liberação pela censura federal. Vocês sabem, e todos nos acudimos da letra do gênio blanqueano, quando Aldir exercita sua salada poética, misturando Carlitos com viúvas de presos políticos assassinados. Referindo-se explicitamente na “volta do irmão do Henfil”, a Betinho, o sociólogo do bem e da comiseração.    Paro por aqui este lamento em preito ao desaparecimento de um grande brasileiro. Até porque não há como não derramar lágrimas pela tragédia que nos subtrai um gênio carioca e um dos seus mais sensíveis poetas. Lágrimas que engrossam quando fico a imaginar a solidão do caixão fechado, do velório proibido, da ausência de nossas presenças para conforto à Mari, filhas, netas. E a nós mesmos.    Ricardo Cravo Albin        

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