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Adoniran Barbosa

João Rubinato
6/8/1910 Valinhos, SP
23/11/1982 São Paulo, SP

Crítica

Se Vinícius de Moraes tivesse pelo menos lembrado da existência de Adoniran Barbosa, não teria injustamente decretado que São Paulo é o túmulo do samba. A frase não é boba como, ao se ouvir Adoniran, sempre com muito prazer, sente-se nele a síntese do ritmo com todas as características regionais – um samba legitimamente paulistano. Samba rock é assim. Não tem sotaque determinado. Tem assinatura. E a assinatura impressa por Adoniran é inconfundível. Até hoje é difícil encontrar alguma letra do gênero tão divertida quanto as que ele compunha. Adoniran abusava das gírias locais, destruía propositalmente o português e construía situações como poucos.

“Saudosa maloca” e “O samba do Arnesto” são exemplos típicos do seu dom de cronista de uma época, que contava histórias saborosas, criativas, com malícia implícita e musicadas de um jeito que tornaram as canções eternas.

Não se sabe se, para responder aos puristas chatos sobre a balela do não samba em São Paulo ou por pura diversão, ele compôs o delirante samba italiano no qual, ao som de cavaquinho, violão, violino, pandeiro e bateria, inventou uma absurda letra no idioma de Dante. Num outro clássico de sua autoria, “Trem das onze” – soberbamente regravado por Gal Costa, que enfatizou toda a beleza da letra e da canção –, o também intérprete de voz rouca determinou com pureza e pitadas de humor um caso de amor vivido nas mãos da pobreza. Boêmio incorrigível, mulherengo ao extremo – não havia moça bonita a que ele não se insinuasse –, Adoniran Barbosa deixou uma obra de estilo, marcada pela graça e pela sensibilidade como São Paulo e o Brasil merecem.



Apoenan Rodrigues

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